Murdoch vai à sede do News of the World, que diz adeus neste domingo

Última edição do tabloide de 168 anos traz pedido de desculpas a leitores por escândalo de escutas telefônicas ilegais

iG São Paulo | 10/07/2011 09:15 - Atualizada às 14:10

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O magnata Rupert Murdoch chegou neste domingo à sede do tabloide News of the World, em meio ao escândalo sobre escutas telefônicas ilegais que levaram o jornal de 168 anos a publicar neste domingo sua última edição.

Imagens de TV mostraram o CEO do conglomerado News Corporation (News Corp.) sendo levado à sede do jornal em Londres. O australiano de 80 anos foi sentado no banco da frente de uma Range Rover vermelha com a cópia da última edição do tabloide em suas mãos.

Horas mais tarde, a chefe-executiva da subsidiária News International, Rebekah Brooks, foi vista entrando no edifício onde fica o apartamento de Murdoch.

Foto: AP

Murdoch chegou a Londres neste domingo e seguiu para a redação do News of the World

Murdoch, que chegou a Londres de uma conferência de mídia em Idaho, nos Estados Unidos, vem sofrendo pressão desde o aumento das críticas contra o periódico nesta semana. Políticos britânicos e acionistas pedem medidas drásticas em relação à suposta má conduta do jornal e querem que Murdoch afaste Rebekah Brooks do cargo.

Rebekah Brooks, ex-editora do News of the World, tem sido pressionada sobre sua decisão de permanecer no cargo da subsidiária enquanto cerca de 200 jornalistas do tabloide perderam seus empregos devido ao escândalo.

Neste domingo, a última edição do tabloide britânico chegou às bancas, trazendo na primeira página uma mensagem de adeus: “Thank you and Goodbye”. A 8.647 edição do News of the World pede desculpas a seus leitores, mas não se alonga muito depois de admitir alegações recentes de que jornalistas usaram meios questionáveis para obter informações.

“Prezamos por altos padrões, exigimos alto padrões mas (...) por um período de alguns anos até 2006 alguns que trabalharam para nós, ou em nosso nome, diminuídos de forma vergonhosa por nossos padrões”, diz o editoral de página inteira do jornal. “Simplesmente, nos perdemos. Telefones foram grampeados, e para este jornal isso é uma verdadeira pena. Não há justificativa para esse pavoroso delito”, disse o texto.

A edição deste domingo do tabloide trouxe, em suas 120 paginas, uma reprodução da primeira capa do jornal, que data de 1843. O jornal também deu boas-vindas ao anúncio feito pelo primeiro-ministro David Cameron de dois diferentes inquéritos, um em que a polícia investiga os grampos ilegais e outro, sobre ética e regras para jornalistas dentro do Reino Unido.

Para alguns, o fechamento do News of the World é visto como uma tentativa do grupo de Murdoch de impulsionar a incorporação da rede TV por satélie British Sky Broadcasting (BSkyB), negócio avaliado em torno de US$ 19 bilhões. O magnata vinha negociando a compra de 100% das ações da BSKyB, da qual já é acionista minoritário.

Foto: AP

Última edição do tabloide News of the World traz pedido de desculpas aos leitores

De acordo com analistas, a expectativa é que Murdoch tente limitar os danos ao seu conglomerado News Corporation com a tentativa de incorporar a BSkyB, subsidiária britânica da operadora de TV por assinatura Sky.

O secretário de cultura britânico Jeremy Hunt anunciou que considerará o impacto do fechamento do News of the World para avaliar a proposta de Murdoch em relação à BskyB. O líder da oposição trabalhista Ed Milliband pediu que Murdoch desista da empreitada e disse que pretende propor uma votação na Câmara dos Comuns a fim de garantir que a aquisição da operadora de TV por assinatura seja adiada até a conclusão das investigações sobre os grampos ilegais.

Em editoral deste domingo, o jornal britânico The Guardian lamentou o fechamento do tabloide histórico, mas ressaltou que "a influência malígna de Murdoch deve acabar, com o fim do News of the World". "O término do News of the World é o preço que Murdoch concorda em pagar por repensar a erosão acelerada do flanco britânico de seu império internacional", diz o texto.

Decisão

No sábado, Murdoch disse que a decisão de fechar o tabloide foi "coletiva". No último dia da conferência anual de mídia Allen & Co. em Sun Valley, Idaho, Murdoch voltou a defender ainda a chefe-executiva da News International, Rebekah Brooks, ao dizer que ela tem seu “total” apoio.

Também no sábado, os opositores do Partido Trabalhista pediram por um inquérito imediato sobre o caso, antes que provas importantes contra o News of the World se percam depois da última edição do tabloide britânico. Segundo o Guardian, uma fonte do News of the World disse que milhões de emails que poderiam depor contra o tabloide já foram apagados.

Em carta ao primeiro-ministro, David Cameron, o trabalhista Ivan Lewis pediu por “discussões imediatas para que até o fim do dia estejamos em posição de concorda com o apontado pelo juiz” para liderar um inquérito independente sobre o escândalo. Em entrevista à Sky News, o vice-líder do Partido Trabalhista, Harriet Harman, alertou para a necessidade de acelerar o processo judicial contra o tabloide e seus funcionários.

A Igreja da Inglaterra disse no sábado que cogita retirar os quase 4 milhões de libras (4,5 milhões de euros) em ações que tem investido no News Corp., se o grupo empresarial de Murdoch não investigar os diretores suspeitos de envolvimento no escândalo das escutas ilegais.

O Grupo Consultivo de Investimento Ético (EIAG, na sigla em inglês), da principal confissão britânica, escreveu ao conglomerado de Murdoch para dizer que considera "repreensível e uma falta de ética" o comportamento de seu dominical News of the World. Além disso, o grupo demonstrou satisfação pela decisão do magnata de fechar o histórico periódico sensacionalista, mas indicou que a medida "não é resposta suficiente" para enfrentar as acusações de práticas ilegais no veículo.

Prisões

Na sexta-feira foi detido e solto após o pagamento de fiança Andy Coulson, diretor do jornal entre 2003 e 2007, época em que foram feitas as escutas de personalidades da vida pública britânica.

Autoridades detiveram também Clive Goodman, antigo editor setorista da Família Real britânica do News of the World, que já cumpriu pena de quatro meses em 2007 por interceptar caixas de correio de celulares, incluindo as de memnbros da Família Real britânica, em colaboração com o detetive Glen Mulcaire. Outros três jornalistas do rotativo foram detidos e postos em liberdade condicional enquanto continua a investigação.

A detenção de Coulson sob suspeita de corrupção e intercepção de telefones enquanto era diretor do News of the World também tem implicações para o governo, já que o jornalista de 43 anos foi porta-voz do primeiro-ministro, David Cameron, cargo ao qual renunciou em janeiro.

Coulson sempre sustentou que não sabia das atividades ilegais feitas pelos repórteres do tabloide sob sua direção.

Grampos

Embora escutas ilegais por parte de funcionários do News of the World não sejam novidade, o caso ganhou mais vigor com a descoberta que não apenas celebridades haviam sido grampeadas, mas também uma menina assassinada e familiares de soldados mortos no Iraque.

Diante da indignação provocada pelas revelações, Cameron anunciou na sexta-feira que será aberta uma investigação judicial e outra sobre ética jornalística, além da investigação policial conduzida pela Scotland Yard sobre o escândalo. O chefe do governo britânico também defendeu a decisão de contratar Coulson como chefe de imprensa, a quem pediu "garantias" de sua inocência.

O fechamento do tabloide britânico foi anunciado pelo presidente da News International, James Murdoch (filho de Rupert Murdoch) na quinta-feira. A edição deste domingo será a última do periódico de mais de 100 anos de história.

Na sexta-feira, Rebekah Brooks informou na sexta-feira aos funcionários que deixará de dirigir a investigação interna por conflito de interesses.

*Com AP e BBC

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