Governos árabes preferem manter uma postura cautelosa e discreta em face aos eventos no Irã para não deteriorar ainda mais as relações com o governo iraniano, disseram analistas ouvidos pela BBC Brasil.


Segundo os analistas, a crise iraniana está sendo acompanhada de perto por países como Arábia Saudita e Egito. Mas comentários destes países sobre os eventos no Irã poderiam ser tomados como interferência árabe nos assuntos iranianos e minar os esforços do presidente americano Barack Obama para negociações em torno do programa nuclear iraniano.

O mundo árabe está dividido em dois blocos em relação ao Irã. O primeiro é formado por Arábia Saudita, Egito, Jordânia e outros que temem um Irã nuclear e a crescente influência do país no Líbano e territórios palestinos, com apoio financeiro, militar e logístico aos grupos Hezbollah e Hamas.

No entanto, outro bloco formado por Síria, Sudão e Catar possuem boas relações com o Irã. O governo sírio é o grande aliado dos iranianos em seu apoio ao grupo xiita Hezbollah e os palestinos do Hamas.

Segundo o professor Mahjoob Zweiri, do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade da Jordânia, os países árabes não querem ser vistos como incentivadores da onda de protestos no Irã para não comprometer a posição de Obama.

"Com uma nova política americana na região, os árabes querem dar a chance para Obama de convencer os iranianos a não continuarem com seu projeto nuclear. Comentários oficiais sobre os protestos poderiam ser interpretados pelo Irã como conspiração árabe", disse Zweiri.

Flexibilidade

Os resultados da eleição presidencial no Irã, que deram mais de 62% dos votos ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, foram um grande golpe para os governos de países como Egito e Arábia Saudita. O candidato reformista Mir Hossein Mousavi contestou os resultados e fez acusações de fraude no processo eleitoral.

Para o professor Zweiri, os árabes viam no candidato reformista uma alternativa de melhor flexibilidade para negociar o programa nuclear do país e diminuir a tensão com os vizinhos da região.

"Os protestos são vistos pelos árabes como um momento delicado pelo peso do Irã na região, mas por enquanto eles vêm seguindo os passos do governo americano, que adotou cautela".

Em meio à onda de protestos, o governo do Irã convocou embaixadores estrangeiros para reclamar de "comentários intrometidos e impertinentes" e "interferência intolerável" de outros países em assuntos internos iranianos.

"Obviamente que o governo Ahmadinejad tentará usar qualquer comentário "hostil" em uma arma para convencer a população de que há interferência estrangeira (e árabe) em seus assuntos domésticos".

Para o professor, há claramente no Irã um duelo entre duas visões diferentes, que decidirá como o Oriente Médio andará nos próximos anos.

Ações

Outro analista político, Mohammed Jabber al-Ansari, do Bahrein, frisou que árabes são extremamente suspeitos em relação ao Irã. "Não há confiança mútua entre iranianos e árabes, mas o pragmático Mousavi era visto com maior preferência para conversas multilaterais".

Mas segundo al-Ansari, com a convulsão política no Irã, os árabes preferem esperar para ver os resultados desta crise e avaliar suas opções de como lidar com o governo iraniano.

"O silêncio árabe não é nenhuma surpresa. Mas uma vez passada a crise, os árabes esperarão por ações mais duras e concretas de Obama" avaliou o analista.

O reformista Mousavi já havia dito em sua campanha eleitoral que estaria disposto a conversas mais abertas com o mundo ocidental, especialmente os Estados Unidos, e outras reformas. Entretanto, ele se posicionou a favor do direito do Irã de ter tecnologia nuclear para fins pacíficos.

"Árabes estão apostando no efeito Obama e que o presidente americano aplique sua política de aproximação com o Irã. Em se mantendo fora, eles querem evitar mais atritos com os iranianos, o que poderia trazer mais instabilidade para a região", afirmou al-Ansari.

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