O novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, foi recebido pela multidão reunida na praça na frente do Senado do Paraguai, na capital, Assunção, por ocasião da sua posse, nesta sexta-feira, com gritos de Itaipu. Em seu discurso de posse, porém, o novo presidente não fez referência direta à sua principal promessa de campanha: a renegociação do Tratado de Itaipu, assinado com o Brasil.

O novo presidente disse, no entanto, que "os paraguaios são os primeiros proprietários do futuro de seus recursos naturais", e afirmou ainda que o país vai explorar "com responsabilidade seus recursos naturais como a água".

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, um dos 11 chefes de Estado presentes à cerimônia, deu a entender depois que resistirá a uma revisão do Tratado da usina hidrelética de Itaipu, firmado com o Paraguai, que resulte em aumento de preços para os consumidores de energia brasileiros.

"Qualquer aumento que incidir em aumento para o consumidor brasileiro fica complicado", disse o presidente em Assunção.

Lula disse que está aberto a negociações sobre a revisão do Tratado, que foi uma das promessas de campanha de Lugo, mas explicou que vai esperar o Paraguai apresentar sua proposta para dar seu parecer.

"É uma reivindicação antiga. Primeiro eu preciso saber qual é a demanda que o presidente Lugo vai fazer ao Brasil. E dentro daquilo que for possível negociar nós vamos negociar. Porque nós queremos ajudar o Paraguai", afirmou.

Lugo deverá visitar o Brasil nas próximas semanas para tratar do assunto.

Esperança
Durante sua campanha à Presidência, Lugo disse que iria renegociar o tratado, firmado em 1973, para cobrar um preço justo pela energia excedente que o Paraguai vende ao Brasil.

A posição do governo brasileiro até agora vinha sendo a de que considera justo o preço pago ao Paraguai e que não pretende revê-lo.

Mas o presidente brasileiro enfatizou que o Brasil precisa ajudar seus vizinhos a se desenvolverem.

"É importante que o Brasil cresça economicamente, mas junto com o Brasil têm que crescer os outros países da América do Sul e do Mercosul", continuou Lula.

"Nossa política externa defende que o Brasil tem a responsabilidade de ajudar os países da América do Sul, da América Latina. E sobretudo ajudar os países mais pobres da América do Sul e do Mercosul."
Lula disse que o Brasil tem o dever de ajudar Lugo para que a ele possa realizar as mudanças que são necessárias no Paraguai.

"Lugo é uma renovação da esperança para o povo do Paraguai", disse. "Só nos resta contribuir para que essa esperança não seja frustrada."
'Integração'
No discurso de posse, Lugo disse que seu governo "crê ferventemente na integração" e que o Paraguai quer "um desenvolvimento compartilhado com seus irmãos da Argentina e do Brasil".

Ao assumir o cargo, em uma cerimônia acompanhada por milhares de pessoas no centro da capital, Assunção, Lugo disse que o Paraguai começa a mudar a partir de agora, mas afirmou que esse processo ocorrerá de forma paulatina.

"Não será fácil. Mas não será impossível", disse o presidente.

Lugo assume com grande pressão popular para que promover reformas em áreas como saúde, educação, emprego e combate à corrupção.

A posse de Lugo encerra um período de 61 anos de governo de um só partido, o Coloraso. "Chega ao fim a interminável transição (democrática)", disse o novo presidente.

Apesar de uma vitória considerada histórica nas eleições de abril, Lugo não tem maioria no Congresso e enfrenta divergências internas em sua ampla coalizão de governo. Por isso, segundo analistas, o novo presidente poderá enfrentar dificuldades para aprovar reformas e cumprir suas promessas de campanha.

'Brasiguaios'
Em seu discurso, Lugo não fez referência direta aos "brasiguaios", como são chamados os agricultores brasileiros que produzem no Paraguai.

O presidente disse apenas que todos os agricultores do país poderão trabalhar em segurança.

Outra das promessas de campanha de Lugo é a reforma agrária. A cerimônia de posse foi acompanhada por diversos grupos de pequenos agricultores, que apóiam o novo governo.

Nos dias que antecederam à posse, diversas organizações de sem-terra e de pequenos agricultores chegaram a afirmar que iriam promover invasões de terras a partir deste sábado, para pressionar o novo presidente a cumprir a promessa de fazer uma reforma agrária.

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