Ana Cárdenes. Jerusalém, 23 abr (EFE).- Uma vez por mês as vozes de mulheres judias se elevam diante do Muro das Lamentações, em Jerusalém, para entoar as rezas da lua nova, um ritual rejeitado pelos ultraortodoxos, que consideram pecado ouvir uma mulher cantar.

Há duas décadas, as "mulheres do muro", como são conhecidas, tentam desta forma reivindicar seu direito de fazer rituais religiosos no lugar mais sagrado para o judaísmo, enfrentando a concepção mais tradicional da fé, que proíbe que mulheres ordenem como rabinas, leiam o rolo da Torá ou liderem rezas.

A legislação israelense reserva aos homens o direito de dirigir cerimônias religiosas, vestir o tradicional manto de oração ou usar as cintas com inscrições na praça do Muro das Lamentações, onde as normas são ditadas pelo setor ultraortodoxo judaico.

Frente às limitações ao papel das mulheres na prática mais tradicional, no judaísmo reformista e no neo-ortodoxo (correntes majoritárias fora de Israel), as mulheres participam ativamente da liturgia, dirigem rituais, rezam junto aos homens e estudam o Talmude (registro de discussões rabínicas).

"É uma vergonha que a sociedade israelense sucumba ao extremismo radical dos haredim (ultraortodoxos), que são apenas uma pequena parte do judaísmo", disse à Agência Efe Peggy Cidor, membro da direção da organização Mulheres do Muro (WOW, na sigla em inglês).

Israel permite que membros da WOW realizem cerimônias no Muro das Lamentações apenas uma vez ao mês, no primeiro dia da lua nova.

Mais de uma centena de religiosas feministas se reúnem às sete da manhã no local sagrado, rodeadas de soldados e policiais que as protegem de possíveis ataques dos ultraortodoxos, que, em mais de uma ocasião, chegaram a lançar cadeiras contra elas. Apesar de a legislação impedir que elas usem vestimentas religiosas reservadas aos homens, muitas cobrem a cabeça com o quipá e usam o manto religioso debaixo de seus casacos.

Elas também se enrolam com cachecóis ou decoram o manto com bordados de flores coloridas para burlar sua definição estrita, que é oficialmente branco com listras pretas.

Atrás delas e fora da ala reservada para as mulheres em frente ao muro, 20 homens rezam em apoio à iniciativa e para reivindicar que representantes dos dois sexos possam orar juntos no santuário.

Em contraste, na zona de reza masculina, 50 homens ultraortodoxos vestidos totalmente de preto e indignados pelo atrevimento das mulheres aumentam suas vozes para impedir que seu pecaminoso canto chegue a seus ouvidos.

Alguns se aproximam para xingá-las, as acusam de não serem judias, de serem uma vergonha para seu povo e de profanarem o sagrado lugar. Outros vão mais além e as chamam de lésbicas ou rogam maldições para que nunca tenham filhos.

"É parte da ignorância de não estudar a fundo as fontes, que estabelecem que as mulheres sejam liberadas de alguns preceitos, mas não que sejam proibidas de cumpri-los", diz Sandra Kochmann, rabina do movimento conservador e originária do Uruguai.

Segundo ela, "as regras que impediam que as mulheres participassem do culto são uma questão de interpretação da época.

Hoje os textos devem ser interpretados levando em conta que elas fazem parte de todas as esferas da vida".

Depois das rezas do amanhecer, o grupo se desloca para o parque arqueológico adjacente para ler o rolo da Torá, algo expressamente proibido na praça do Muro das Lamentações, por serem mulheres.

Cidor diz ser "imprescindível que o muro seja de todos os judeus, não só dos mais radicais" e que a situação atual "é igual à que ocorre no Irã".

Os judeus extremistas, denuncia indignada, "construíram uma barreira para separar homens e mulheres, não permitem que cadeirantes entrem em Shabat e proíbem que cristãos entrem na praça com uma cruz no pescoço". EFE aca/pd

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