Mudança de Chávez em relação às Farc divide analistas

A aparente mudança de postura do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em relação às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) divide analistas, que não concordam se as palavras representam ou não uma tentativa de ruptura com os guerrilheiros. Em seu programa semanal de rádio e televisão, no domingo, Chávez pediu ao grupo rebelde que encerre a luta armada e entregue todos os reféns em seu poder.

BBC Brasil |

Entretanto, em declarações feitas anteriormente, o presidente defendeu o que chamou de "projeto político" das Farc e disse que a luta do grupo é legítima.

Aliados de Chávez dizem que não houve alterações no seu discurso. "Não é que Chávez tenha dado apoio político às Farc e agora esteja retirando", afirma José Egidio, membro da Academia Diplomática da Chancelaria venezuelana, à BBC.

"O que dizia é que este é um conflito interno, que tem em suas origens a história recente da Colômbia", acrescenta Egidio.

O ex-presidente da Assembléia Nacional Rafael Jimenez, que foi um aliado de Chávez em sua Revolução Bolivariana, diz não acreditar que o presidente vai "se desvincular de sua aliança estratégica com as Farc".

Segundo Jimenez, o líder venezuelano "só busca lavar o rosto frente à comunidade internacional" em face ao repúdio que provocaram declarações dele que foram interpretadas como uma defesa da guerrilha.

"Não é preciso ser um grande analista para perceber que as Farc estão derrotadas no terreno militar e social e o que mais convém é aderir à estratégia, adotada inclusive pela esquerda radical da América Latina, de buscar a via eleitoral para o acesso ao poder", disse.

Computadores
Embora esta seja a primeira vez que Chávez tenha condenado abertamente e sem eufemismos alguns artifícios usados pela guerrilha, como os seqüestros, ele sempre insistiu que os rebeldes deveriam ter uma base política e pacífica.

Essa postura mostra o alinhamento de Chávez com o líder cubano Fidel Castro - que, depois de apoiar guerrilhas latino-americanas nos anos 60 e 70, acabou reconhecendo as limitações da via armada - e diferencia o presidente venezuelano das Farc.

Para alguns dos mais radicais opositores de Chávez, as declarações deste domingo têm a ver com a descoberta de computadores pertencentes ao líder das Farc Raúl Reyes, morto em uma operação militar colombiana no Equador em fevereiro.

Logo após a incursão, Venezuela e Equador se uniram para criticar a Colômbia pela violação do território equatoriano, provocando a maior tensão militar na região nos últimos anos.

Contudo, nas últimas semanas, a tensão diminuiu bastante, e os governos venezuelano e colombiano parecem estar tentando estreitar novamente os laços que trazem grandes benefícios econômicos aos dois.

Os opositores suspeitam que os computadores de Reyes, hoje em poder do Exército colombiano, guardam evidências de ajuda do presidente venezuelano à guerrilha que poderiam ser usadas para levar Chávez aos tribunais internacionais.

Se essa for a causa das mudanças recentes, elas seriam o equivalente a um reconhecimento de culpa de Chávez e também atribuiriam um caráter extorsivo à diplomacia colombiana.

Eleições
Outros analistas fazem outra interpretação e avaliam que a mudança de postura tem a ver com as circunstâncias domésticas da Venezuela, que realiza eleições locais no fim do ano.

De acordo com várias pesquisas, a oposição a Chávez tem força para recuperar vários governos estaduais e prefeituras.

Acredita-se que as palavras de apoio de Chávez às Farc possam ter tido um impacto negativo na grande comunidade de imigrantes colombianos que vivem na Venezuela, muitos dos quais podem votar por ter dupla cidadania.

Para o presidente venezuelano, seria conveniente reduzir essa interferência na política interna de seu país. Pelo menos por ora.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG