BEIRUTE - O presidente americano, Barack Obama, foi elogiado por muitos líderes muçulmanos nesta quinta-feira por um discurso formulado para reparar a imagem maculada dos EUA junto ao mundo islâmico. Porém, algumas reações mais céticas mostraram que ele ainda tem uma montanha a escalar.


Barack Obama discursa no Egito / Reuters

Seu chamado por um "novo começo" com o mundo muçulmano, baseado no interesse e respeito mútuo, encontrou eco junto a muitos que ouviram o discurso que o líder americano proferiu na Universidade do Cairo.

Mas alguns disseram que não ouviram nada de novo sobre as políticas específicas, especialmente com relação ao conflito entre israelenses e palestinos, que, para muitos muçulmanos em todo o mundo, simboliza a injustiça.

"Pela primeira vez, os EUA estão adotando uma estratégia muito sábia, reconhecendo o outro, e isso ficou claro em cada palavra escolhida pelo presidente Obama," disse Randa Achmawi, editora diplomática do periódico egípcio Al-Ahram Hebdo.

O analista político saudita Khalid al-Dakhil disse que a mensagem de Obama foi de "reconciliação e novos começos" e será muito bem recebida no mundo árabe. "Se terá sucesso em lançar uma ponte sobre essa divisão, isso é algo que levará tempo."

Radicais islâmicos, porém, reagiram de modo hostil. Hassan Fadlallah, legislador do grupo xiita libanês Hezbollah, que tem o apoio do Irã, disse que "o mundo islâmico não precisa de sermões morais ou políticos".

"Ele precisa de uma mudança fundamental na política americana, começando com o fim do apoio total à agressão israelense contra a região, especialmente contra os libaneses e palestinos, uma retirada americana do Iraque e Afeganistão e o fim da ingerência dos EUA nos assuntos dos países islâmicos", afirmou.

Em Teerã, Mohammad Marandi, diretor de Estudos Norte-Americanos na Universidade de Teerã, reconheceu que o tom adotado por Obama em relação ao Irã foi "significativamente mais positivo" que o do ex-presidente George W. Bush, mas disse que falar não basta.

"Ele pode fazer mais alguns discursos, mas as pessoas estão começando a perguntar: o que o senhor vai mudar?"

O chamado de Obama pelo fim da construção de assentamentos israelenses foi cautelosamente bem recebido pelos palestinos. Um porta-voz do presidente palestino Mahmoud Abbas o descreveu como "bom começo" em direção a uma nova política dos EUA no Oriente Médio.

Embora Obama também tenha dito aos palestinos que devem renunciar à violência e exortado o grupo militante islâmico Hamas a reconhecer Israel, alguns israelenses o acusaram de aplacar as nações árabes.

"Ele é uma grande ameaça à segurança de Israel, porque não compreende o significado de Israel para os judeus," disse Miriam Gal-el, colona judia em Ofra, na Cisjordânia ocupada.

Muitos palestinos se indagaram se Obama realmente conseguirá levar a paz ao conflito que já dura seis décadas. "(O discurso) foi tão longo e educativo quando um sermão religioso de sexta-feira," disse o estudante da Faixa de Gaza Ali Jad, de 23 anos. "Ele parece falar a sério sobre pôr fim ao conflito palestino-israelense, mas quando isso vai se concretizar?"

Issandr el-Amrani, um analista egípcio, disse que não ficou maravilhado com o discurso de Obama. "O argumento mais forte foi provavelmente que a situação dos palestinos é intolerável," comentou.

"Acho que o discurso cumprirá seu objetivo de gerar boa vontade," disse, acrescentando que muitos egípcios permanecem céticos, "com um pouquinho de otimismo", em relação à política dos EUA sob Obama.

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