Muçulmanos esperam mais ações de Obama, dizem analistas

Os muçulmanos do mundo árabe querem ver transformadas em ações as promessas do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil. Obama chega nesta quinta-feira ao Egito, onde fará um discurso dirigido ao mundo islâmico na Universidade do Cairo.

BBC Brasil |

De acordo com os analistas, a mensagem do presidente deverá esclarecer como a nova política americana atingirá as expectativas de muçulmanos quanto ao conflito árabe-israelense e anseios por maior democracia na região, dominada por regimes apoiados pelos Estados Unidos.

Para o escritor e analista islâmico egípcio Mostafa Al Nagar, os muçulmanos devem receber com esperança e otimismo as palavras de Obama, com discursos anteriores repletos de promessas e elogios.

"Mas discursos não causaram até agora uma mudança substancial. Palavras devem ser acompanhadas de ações, ou do contrário a credibilidade estará em perigo", alertou Nagar.

Inspiração

O analista reconhece em Obama uma fonte de inspiração para muçulmanos que querem um novo mundo, baseado em justiça, igualdade e liberdade para todos.

"Ele (Obama) tem boas intenções em reconciliar os Estados Unidos e o mundo islâmico, e em mudar a imagem americana entre muçulmanos e os estereótipos de árabes depois dos atentados do 11 de Setembro".

Para Nagar, os muçulmanos entendem que Obama terá vários desafios e os obstáculos serão complexos. A fonte de imagem negativa para os Estados Unidos, segundo ele, seria a falta de solução para a causa palestina, o principal problema na região para a comunidade islâmica.

"Ser um mediador justo e eficaz no conflito entre israelenses e palestinos dará a Obama a confiança de árabes e muçulmanos, que consideram este assunto uma prioridade. Se isso não for atingido, não há razão para acreditar que a situação mudará", disse Nagar.

O analista político libanês Rami Khoury também acredita que Obama deverá esclarecer em seu discurso como resolverá o conflito árabe-israelense.

"Um Estado palestino independente se transformou ao longo de décadas na principal fonte de identidade pan-islâmica. E Obama não pode ignonar este fato, dizendo em seu discurso o que fará de concreto para atender a esta demanda", salientou Khoury.

Khoury também disse que Obama precisa convencer os muçulmanos que sua política na região será baseada no príncipio de que as leis internacionais vão ser aplicadas da mesma forma para árabes e israelenses.

Síria e Irã

Segundo o reitor da Universidade Al Quds, em Jerusalém, Sari Nusseibeh, além do conflito entre Israel e palestinos, Obama precisa também dizer aos muçulmanos como resolverá questões regionais como as tensões americanas com o Irã e a Síria, e com os grupos Hezbollah e Hamas.

"Obama não está tentando um maior diálogo com Síria e Irã, mas não pode fazer isso e isolar Hamas e Hezbollah, aliados destes dois países. O contexto regional exige muito mais que palavras de boa fé", disse Nusseibeh.

Para ele, o presidente americano precisa dizer como uma nova política de seu governo trará o Hezbollah e o Hamas para dentro de um processo mais amplo de paz na região.

Segundo o libanês Khoury, Irã e Síria, além dos grupos Hezbollah e Hamas, fazem parte de um bloco chamado de "resistência" à política americana na região.

No entanto, ele acredita que há uma oportunidade única no momento para os Estados Unidos de Obama.

"Há uma inclinação para ver como Obama pode mudar a região e a administração americana precisa usar esta vantagem".

Democracia

O analista libanês aponta ainda a democracia no Oriente Médio como outro ponto essencial que Obama deve colocar em seu discurso para atingir a comunidade muçulmana.

"Os Estados Unidos apóiam vários regimes de ditaduras que oprimem suas populações e não representam seus valores e anseios. Será decisivo ver se as palavras de Obama serão dirigidas às massas e não aos governantes. Isso será crucial para ganhar os corações e mentes de muçulmanos", avaliou Khoury.

O analista egípcio Nagar disse que a escolha do Egito, cujo governo é uma ditadura, pode ser um erro, pois o mundo islâmico é composto por cerca de 1,3 bilhões de pessoas, mas que árabes só correspondem a 300 milhões.

Ele acredita que se Obama quer atingir apenas os árabes, então o Egito foi a escolha certa por ser o centro da região e ter importância estratégica.

"Mas se seu discurso for dirigido a todos os muculmanos, então teria sido melhor fazê-lo na Indonésia, maior país islâmico com 287 milhões de muçulmanos e que possui uma democracia", completou Nagar.

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