Muçulmana multada por uso do véu na França diz sofrer insultos diários

Hind Ahmas, que se recusa a deixar de usar o niqab, afirma ser chamada de 'terrorista' e 'lixo' nas ruas

BBC Brasil |

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AP
Hind Ahmas mostra cheque de 120 euros com o qual pagou multa por usar véu islâmico em Meaux, na França (22/09)
A francesa muçulmana Hind Ahmas, que foi a primeira pessoa a ser condenada pela Justiça francesa por usar o niqab , um véu que deixa apenas os olhos à mostra, diz "ser insultada todos os dias" ao caminhar pelas ruas com o rosto coberto.

O uso da vestimenta em locais públicos foi proibido por lei na França desde abril passado.

"São insultos pessoais ou contra os muçulmanos. Normalmente, as pessoas gritam grosserias pelas janelas dos carros ou esperam que eu me distancie delas nas calçadas para me ofender", contou Ahmas em entrevista à BBC Brasil. "Sou chamada de lixo, de terrorista, extremista ou me dizem para eu voltar para o Afeganistão", diz ela.

Hind afirma que não sofre pressões por parte de membros da família ou homens muçulmanos para cobrir o rosto.

"Vivo como qualquer mulher, a única diferença é a minha escolha de vestimenta", afirma Ahmas, que é divorciada e mãe de uma garota de quatro anos.

A França é o primeiro país europeu a aplicar a proibição do uso do véu que cobre parcialmente ou totalmente o rosto em qualquer espaço público, como transportes, lojas, parques, escolas e repartições.

Multa

Na semana passada, a Justiça condenou Ahmas, 32 anos, e Najate Naït Ali, 36 anos, a multas de 120 e 80 euros, respectivamente (cerca de R$ 300 e R$ 200). A multa máxima prevista na lei é de 150 euros.

Segundo Ahmas, a lei francesa "viola o direito europeu, que garante a liberdade de convicções religiosas". Por esse motivo, ela continua usando normalmente o niqab - que deixa apenas os olhos à mostra.

"Retirar o niqab significaria renegar minha fé. Faz quase sete anos que uso o véu integral, muito antes das discussões sobre a lei. Não cubro o rosto por provocação ou porque o assunto está na moda", diz ela, que mora em Aulnay-sous-Bois, uma periferia pobre de Paris.

Por enquanto, ela foi parada nas ruas pela polícia "quatro ou cinco vezes", sendo que em um dos casos foi algemada e levada para a delegacia. "Eles queriam me revistar e exigi que fosse uma policial feminina. Mas não precisavam me algemar, foi abuso de autoridade."

Nas outras vezes, ela aceitou ir à delegacia ou mostrou seu rosto na rua aos policiais em áreas de menor movimento.

'Sinônimo de terrorismo'

Ahmas considera que a condenação na Justiça é "uma excelente notícia porque dá destaque para o assunto e representa o ponto de partida para conseguir a revogação da lei."

Ela já entrou com recurso contra a decisão dada na semana passada e prevê levar o caso à Corte Europeia de Direitos Humanos. Ahmas criou a associação "Cidadãs da Liberdade" para defender a anulação da lei.

Sua amiga Kenza Drider, que usa o niqab e na semana passada anunciou sua candidatura às eleições presidenciais do próximo ano, também integra a associação. Mas para se tornar oficialmente candidata, Drider precisará recolher 500 assinaturas de políticos franceses, o que dificilmente deverá ocorrer.

Ahmas afirma que o governo francês criou a lei do véu integral por motivos eleitorais, "para desviar a atenção em relação aos reais problemas do país e para que o islamismo seja menos visível na França".

"O islamismo passou a ser sinônimo de terrorismo, de Bin Laden e de bombas. Estou tão longe disso tudo. Só aspiro a ter uma vida tranquila e poder levar minha filha ao zoológico sem ser insultada", diz ela.

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