Movimento estudantil continua forte, mas ainda não apresenta propostas

CARACAS - Alguns cientistas políticos venezuelanos costumam dizer que o presidente Hugo Chávez, à época em que cursava a universidade em Barinas, onde nasceu, chegou a se envolver com o movimento estudantil. Chávez nunca confirmou ou negou a informação. Ainda que seja apenas uma lenda, a história reflete o engajamento do venezuelano com a política.

Gustavo Gantois, enviado especial a Caracas |

Assim como há dois anos, quando dois jovens chamados Yon Goicoechea e Freddy Guevara comandaram os protestos contra a reforma constitucional, hoje as principais figuras de oposição ao governo também vêm das lides universitárias.

Yon, líder estudantil

Roderick Navarro, aos 22 anos, é presidente da Federação de Centros Universitários da Universidade Central da Venezuela. Estudante de Relações Internacionais, ele é o principal líder da atualidade e conseguiu mobilizar mais de 8 mil manifestantes nos protestos da última terça-feira.

Não é um mérito pessoal, mas uma confluência de interesses que vão contra o que Hugo Chávez tem feito com a Venezuela, teoriza Navarro. Os venezuelanos sempre tiveram essa consciência política, mas chega uma hora em que precisamos lutar contra algo que não está dando certo.

Gustavo Gantois
Líder estudantil Roderick Navarro, de 22 anos

Sempre ao lado de Navarro, também arregimentando sua ordem, está Juan Mejia, 21 anos, presidente da Federação de Centros Universitários da Universidade Simón Bolívar. Apesar do nome, a universidade é foco do maior núcleo de oposição estudantil a Chávez. Sem a USB, não há massa para nenhuma manifestação, garante Mejia.

 Mejia, líder estudantil

Juventude perdida
O discurso politizado não é uma exclusividade dessa geração. Mas também não é garantia de sucesso na hora de colocar em prática o que gritam pelas ruas. Yon Goicoechea é um típico exemplo disso. Mais famoso líder estudantil dos últimos tempos, chegou a receber o prémio Milton Friedman por sua luta contra Chávez.

Hoje, Goicoechea é membro do partido político de centro-esquerda Primero Justicia. E partiu dele a orientação para que a legenda boicotasse as últimas eleições legislativas. Hoje sabemos que foi um tiro no pé porque deu ainda mais poderes a Chávez, confessa.

Esse é o pior defeito do movimento estudantil. Gritar, cobrar, ocupar as ruas. Tudo isso ainda é fácil, apesar de toda a repressão que o governo tem feito com a policia militar e a guarda nacional. O problema é que essas lideranças não conseguem repetir na política a mesma mobilização que põem nas ruas.

Os estudantes podem até verbalizar algumas vontades de parte da população, mas eles ainda não conseguiram colocar em prática a vontade de toda a nação, explica a socióloga Pérez Schell. E qual seria essa vontade, então? A de apresentar alguém tão identificado com os pobres quanto Chávez se mostra, mas que tenha credibilidade para isso. Os lideres estudantis ainda são novos para mostrar maturidade política e os políticos de oposição são todos ligados a escândalos de corrupção.

De fato, o que o iG pôde constatar ao longo dos protestos realizados durante a semana é algo muito parecido ao que o Brasil viu em 1992, durante o movimento dos caras-pintadas. Muita vontade de mudar o destino político do pais, mas também muita festa e azaração.

Uma jovem que segurava um cartaz escrito Fora, Chávez, quando perguntada quem poderia substituí-lo, foi rápida: qualquer um. Questionada sobre se não era uma resposta muito genérica, a jovem se calou.

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