O candidato presidencial derrotado e líder das manifestações no Irã, Mir Hossein Moussavi, em uma mensagem em seu site, pediu que seus partidários sejam prudentes, num momento em que o movimento de protesto iraniano pode voltar a ganhar as ruas nos próximos dias.

Moussavi, derrotado por Mahmud Ahmadinejad nas eleições de 12 de junho, afirmou, no entanto, que protestar contra a fraude nas eleições é um "direito do povo".

"Como pessoa de luto pelas mortes nas manifestações de sábado, convido meu querido povo à prudência", escreve Moussavi um texto publicado pelo site de seu jornal, Kalemeh.

O movimento de protesto iraniano contra o resultados eleitorais deixou pelo menos 10 mortos nos últimos dias.

"Protestar contra a mentira e a fraude é direito de vocês. Esperamos obter sse direito e não permitam aos que querem nos deixar furiosos que consigam isso", declara o candidato conservador moderado, indicando desejar que "a polícia e o exército não atuem de forma irremediável em relação ao povo".

Durante este domingo, Teerã levantou o tom de voz contra o Ocidente e, especial contra a Grã-Bretanha, a quem acusou de querer sabotar as eleições presidenciais.

A televisão estatal acusou "agentes terroristas" como responsáveis pelas mortes e feridos. O canal por satélite em inglês da televisão pública iraniana Press TV chegou a informar 13 mortes nos confrontos entre policiais e "terroristas" sábado em Teerã, mas a televisão estatal informou que 10 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas, destacando a presença de "agentes terroristas" com armas de fogo e explosivos.

O próprio presidente Mahmud Ahmadinejad pediu a Estados Unidos e Grã-Bretanha o fim das interferências nos assuntos internos da República Islâmica. O chanceler iraniano, Manuchehr Mottaki, voltou a criticar Londres, acusando o governo britânico de "um complô contra a eleição presidencial há dois anos".

A Grã-Bretanha negou ter manipulado os manifestantes, mas mesmo assim o correspondente da BBC em Teerã, Jon Leyne, recebeu uma ordem das autoridades iranianas para abandonar o país em 24 horas, sob a alegação de ter "apoiado os agitadores".

Além disso, o ministério da Cultura iraniano ameaçou os meios de comunicação britânicos com "mais medidas severas", caso "continuem interferindo nos assuntos internos" do país.

A Al-Arabiya, canal de televisão de informações contínuas com sede em Dubai, anunciou neste domingo que o fechamento de seu escritório em Teerã, em vigor desde 14 de junho, foi prolongado até nova ordem pelas autoridades iranianas.

A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu uma recontagem dos votos e que as autoridades de Teerã renunciem à violência contra os manifestantes. O governo da Itália se disse aflito com a perda de vidas humanas.

Já o presidente francês Nicolas Sarkozy classificou de indesculpável a atitude do Irã "ante o desejo legítimo de verdade de grande parte da população iraniana".

Diante da escalada da crise, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu no sábado ao governo iraniano o fim das ações violentas e injustas, mas, por enquanto, mantém uma atitude discreta em relação ao conflito, apesar da pressão dos republicanos que exigem que os Estados Unidos tomem as rédeas no assunto.

A manhã de domingo foi tranquila nas ruas do centro de Teerã, como aconteceu na véspera, antes da repressão brutal à tarde dos manifestantes, que protestam contra a legalidade da reeleição de Ahamdinejad.

Um participante nos protestos afirmou à AFP sobre planos para novas concentrações em vários pontos da capital até a noite de domingo.

O confronto com as forças oficiais - uma mistura de polícia antidistúrbios, integrantes da milícia islamita basij e grupos não identificados - foi particularmente brutal na avenida Azadi, centro de Teerã.

Milhares de manifestantes foram atingidos por canhões de águas, cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, além de tiros, segundo as testemunhas.

O chefe adjunto da polícia iraniana, Ahmad Reza Radan, afirmou na televisão que as forças de ordem não usaram arma de fogo para dispersar os "agitadores". De acordo com ele, os causadores das mortes foram os os "delinquentes e agentes da OMPI (Organização dos Mujahedines do Povo Iraniano) infiltrados entre os manifestantes".

A agência oficial Irna informou que os serviços secretos iranianos prenderam membros deste grupo de oposição no exílio.

Neste domingo, o ministério da Informação anunciou a prisão de "um certo número de hipócritas" que entraram no Irã para cometer ações terroristas.

A televisão mostrou em seguida confissões públicas de pessoas com o rosto com a imagem difusa e que teriam sido treinadas e enviadas com o apoio da Grã-Bretanha.

Segundo a a organização de defesa da imprensa Repórteres sem Fronteira, três jornalistas iranianos foram detidos e estão presos no Irã desde sábado e, com estes, já são 33 os jornalistas e ciberdissidentes iranianso na prisão nesse país.

Segundo a RSF ainda, um casal de jornalistas, Bahaman Ahamadi Amoee e sua esposa Jila Baniyaghoob, foi preso em 20 de junho em sua residência em Teerã.

A RSF disse também ter recebido confirmação da prisão de Ali Mazrui, presidente da Associação de Jornalistas Iranianos, na semana passada.

A imprensa estrangeira está proibida de cobrir os acontecimentos nas ruas e precisa recorrer a testemunhas.

A manifestação de sábado foi um claro desafio ao guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, o homem mais poderoso do país, que na sexta-feira advertiu que não cederia às ruas.

Um ato de desafio também foi a crítica sem precedentes de Moussavi, conservador moderado derrotado na eleição presidencial, ao aiatolá Khamenei em uma carta dirigida ao "nobre povo iraniano".

Moussavi acusou o guia, sem citar seu nome, de colocar em rico o caráter republicano da República Islâmica ao validar a reeleição de Ahmadinejad, que para ele foi resultado de uma fraude.

A carta de Moussavi, publicada no site de seu jornal, também pediu o prosseguimento das manifestações pacíficas e reiterou a demanda pela anulação da eleição presidencial.

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