Javier Fagúndez Cairo, 17 jun (EFE).- Após cinco dias com uma gravata no pescoço, cada vez é maior o número de executivos egípcios que dedicam os finais de semana a passear sobre uma moto Harley-Davidson, o último capricho da acomodada classe alta do país.

A lendária marca americana inaugurou, nos últimos oito anos, duas lojas no Cairo e outra em Sharm el-Sheikh, um oásis de luxo no litoral do Sinai.

A jovem Inyi Ghattas, proprietária dos três estabelecimentos, disse em seu escritório da capital que, pouco a pouco, o negócio começa a dar certo no Egito, principalmente entre executivos de grandes empresas que passam pela crise dos 40.

Como afirma entre risos Giorgio, nascido no Cairo de ascendência italiana e dono de uma destas motocicletas, "aos quarenta é melhor comprar uma Harley do que ter uma amante".

Enquanto fala, toma um refresco na porta de uma das lojas da marca no bairro de Zamalek, na capital, onde a cada sexta-feira - dia festivo no Egito - alguns proprietários se reúnem para passar a manhã juntos.

Ghattas abriu o primeiro estabelecimento em 2000, e após um começo difícil, já conseguiu vender cerca de 300 motos, a maioria nos últimos três anos.

"Esperamos continuar crescendo, isto é só o começo", afirma, e acrescenta que, segundo seus cálculos, este ano, vai conseguir vender mais cem.

No entanto, não é o barulho da Harley que predomina nas ruas do Cairo, uma selva de buzinas, táxis e microônibus e a corrida na qual habitualmente não se respeita nenhuma norma de circulação.

"Eu normalmente ando a noite", explica Ahmad Farahat, de 46 anos, com quem a maioria dos donos destas motos não concorda, resignados a esconder este capricho sobre rodas do sofrível trânsito do Cairo.

"Para trabalhar, vou de carro", reconhece.

São quatro da manhã e Farahat está em um posto de gasolina, aos arredores do Cairo, onde espera outros trinta motoqueiros para os quais a Harley-Davidson Egito organizou uma viagem até a capital da vizinha Jordânia.

Conforme vão chegando ao local de encontro, todos se cumprimentam, e o bom ambiente reina neste seleto clube, ao qual todos podem se unir se investirem entre 56 mil e 260 mil libras egípcias (entre US$ 10.500 e US$ 48.500) em uma destas motos.

Preços extremamente altos para a maior parte da população, que a cada dia vê seu já baixo poder aquisitivo em queda livre diante da complicada conjuntura econômica.

Em apenas meia hora, o posto de gasolina onde Farahat está cheio de fanáticos pelas Harley, todos egípcios, vestidos com jaquetas de couro, lenços na cabeça e calças jeans justas.

Não há rastro de turbantes ou galabiyas - túnica tradicional egípcia -, tão comuns pelas ruas do Cairo.

Já montados nas motos, pegando a estrada, fazem roncar os motores e se preparam para sete dias de viagem.

Em meio a tanto barulho, um dos motoristas liga seu som e põe, a todo volume, um dos primeiros sucessos de Enrique Iglesias. Coisas da globalização. EFE ju/rb/rr

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