Mortes geram debate sobre papel da imprensa em Israel

A ocorrência de mais dois assassinatos de crianças em Israel na última semana nos quais as próprias mães são suspeitas está gerando uma discussão sobre o papel da imprensa ao divulgar casos desse tipo. Especialistas dizem que o grande destaque dado pela imprensa, há uma semana, ao assassinato de uma menina de 4 anos por seu avô-padrasto pode ter levado mais duas mães a matarem seus filhos, também de 4 anos.

BBC Brasil |

Na noite desta terça feira, a polícia de Tel Aviv recebeu um telefonema de Regina Kruchkov, avisando que tinha matado seu filho de 4 anos, Michael. Ao chegar ao apartamento da mãe, os policiais encontraram o corpo do menino, que teria sido afogado pela mãe na banheira.

Poucos dias antes, outro menino de 4 anos foi supostamente assassinado pela própria mãe. Alon Borissov morreu afogado no mar, na praia de Bat Yam, ao sul de Tel Aviv.

Os dois casos ocorreram dias depois que a mídia em Israel deu um destaque sem precedentes ao caso da menina Rose Pizem, assassinada por seu avô e padrasto.

De acordo com o psicólogo Tzvica Toren, especialista em crianças em situações de risco, a "onda" de assassinatos de crianças dentro das famílias pode ser conseqüência do grande destaque dado pela mídia.

"Muitas vezes, a divulgação de uma 'solução' para uma angústia muito profunda leva outras pessoas que sofrem da mesma angústia a adotar a mesma 'solução'", disse Toren à radio estatal de Israel.

"O mesmo acontece em hospitais psiquiátricos. Quando um paciente se suicida, muitas vezes se seguem mais suicídios", afirmou.

"A mídia deveria trabalhar com especialistas e medir quanto destaque deve dar para certos casos, a fim de não incentivar a ocorrência de mais casos parecidos", disse o especialista.

O risco de outras pessoas copiarem o ato destacado pela mídia gera uma polêmica em Israel sobre o que é mais importante: o direito do público de receber a informação ou a necessidade de evitar a repetição de tragédias desse tipo.

Assistência social
Os três assassinatos também despertam uma discussão sobre o que muitos consideram um investimento baixo do Estado na solução de problemas sociais.

Um dos problemas principais é a escassez de assistentes sociais que possam acompanhar as famílias e detectar, a tempo, os casos de crianças em situação de risco.

O editorial do jornal Haaretz saiu em defesa dos assistentes sociais.

"Os assistentes sociais são o setor mais explorado entre os funcionários públicos, cada um trata de dezenas de casos, um mais grave que o outro, trabalham dia e noite e recebem um salário muito baixo", afirma o editorial.

Segundo o jornal, em Israel há 350 mil crianças consideradas em situação de risco e milhares foram retiradas de suas famílias e transferidas para instituições ou para famílias adotivas.

"Recentemente, os assistentes sociais fizeram uma longa greve, que não obteve muito destaque na mídia. Talvez se a greve tivesse ocorrido logo depois do assassinato de uma criança, o público entenderia a relação entre a escassez de assistentes sociais e o destino das crianças", conclui o editorial do Haaretz.

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