Morte de Kirchner remete ao fascínio da Argentina por seus mortos

Milhares participam de velório de ex-presidente, que pode se tornar figura mítica como Juan Domingo e Evita Perón, diz historiador

Ana Manfrinatto, especial para o iG, de Buenos Aires |

A mobilização nacional causada pela morte do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner (2003-2007) relembra do fascínio dos argentinos por seus mortos. Desde que a notícia foi divulgada na quarta-feira, milhares de pessoas levam flores e acendem velas em frente à Casa Rosada, onde o corpo é velado desde as 10h desta quinta-feira (11h no horario de Brasília).

Serão três dias de velório em Buenos Aires, onde o corpo chegou na madrugada desta quinta-feira, após uma viagem de avião desde El Calafate, sul do país, onde Kirchner morreu.

Na sexta o corpo será levado novamente à região sul, dessa vez a Río Gallegos, onde o ex-presidente nasceu havia 60 anos e será enterrado.

O traslado por diferentes regiões do país recorda o périplo dos corpos de outros dois célebres e míticos nomes da política local: o general Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973-1974) e o de sua segunda mulher, Eva Perón (mais conhecida como Evita).

Idas e vindas

Conhecida como “mãe dos descamisados”, Evita tinha tamanho apelo popular que argentinos faziam altares dentro de casa em sua homenagem. Ela morreu de câncer em 1952, aos 33 anos, e teve seu corpo embalsamado e exposto à visitação pública.

Em 1955, seus restos mortais foram roubados e enterrados na Itália. Após 17 anos, o corpo foi exumado e levado à Espanha, onde Perón estava exilado. Quando voltou à Argentina, ele levou consigo o corpo da mulher, que foi embalsamado novamente e enterrado no cemitério da Recoleta, hoje uma das principais atrações turísticas de Buenos Aires.

As idas e vindas de Evita após sua morte foram contadas no livro "Santa Evita", do escritor argentino Tomás Eloy Martínez, que foi traduzido para mais de 30 idiomas.

O corpo de Perón, que morreu de enfarte em 1974, também percorreu uma longa jornada. Em 1987, o túmulo do presidente no cemitério do bairro de Chacarita foi aberto por “ladrões” que cortaram as suas mãos, levando também uma capa, a espada militar e uma carta manuscrita com um poema para Evita. O misterioso crime não foi esclarecido até hoje.

Em 2006, o corpo de Perón foi transferido para um cemitério em San Vicente, a 45 km de Buenos Aires. Milhares de pessoas se aglomeraram para tentar tocar o caixão do ex-presidente.

Ainda é cedo para dizer se Nestor Kirchner também se tornará um mito, mas o historiador argentino Martín Carnaghi acredita que a probabilidade é alta.

“Kirchner será um mito não somente porque morreu jovem, mas, sim, porque será uma referência do pensamento latino-americano”, afirmou. “Além disso, o peronismo carrega consigo uma mística transformadora que fez com que Perón e Evita se tornassem mitos. O mesmo acontecerá com Kirchner.”

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