Morte de Kennedy deixa esquerda dos EUA sem seu guia

César Muñoz Acebes Washington, 26 ago (EFE).- A esquerda dos EUA se ficou sem uma voz fundamental no seio do Partido Democrata e na política nacional com a partida de Edward Kennedy, que morreu quando seu grande sonho de um seguro de saúde para todos está mais próximo do que nunca para os americanos.

EFE |

Desde que abandonou suas ambições presidenciais nos anos 80, Kennedy, de 77 anos, se tornou um homem de esquerda sem medo de sê-lo, que tinha vergonha de usar o rótulo de "liberal", apesar dos republicanos transformarem essa expressão quase num insulto.

O senador de Massachusetts, batizado com um dos sobrenomes mais exclusivos dos Estados Unidos e uma infância de luxo, foi defensor dos pobres, dos imigrantes e de uma educação de qualidade para todos, desde a convicção que o Estado não é o problema, como disse Ronald Reagan, mas a solução.

"Sua morte é um desastre para o ala progressista do Partido Democrata e para a esperança que o presidente (Barack) Obama se incline rumo à esquerda", disse à agência Efe Benjamin Barber, um ex-assessor de Bill Clinton e de outros democratas de peso que se diz do movimento progressista ao qual se refere.

Apesar do Partido Democrata ter a maioria no Congresso e estar na liderança da Casa Branca, sua esquerda está muito debilitada, segundo Barber, com o domínio nas mãos dos políticos centristas.

Kennedy, que deu um respaldo crucial a Obama durante sua campanha eleitoral, gozava de um acesso privilegiado ao líder e sua ausência deixará sem representante aos que querem um giro à esquerda no Salão Oval.

Seu gradual afastamento do Senado durante os longos meses de doença já se deixou sentir nas negociações sobre a reforma do sistema de saúde, que pretende cobrir aos quase 50 milhões de americanos sem seguro.

"O fato de que tenha estado muito doente teve um impacto muito sério", disse Steven Greene, professor de ciências políticas da Universidade do Estado da Carolina do Norte.

"O projeto de lei teria avançado mais se ele pudesse ter tido um papel maior", explicou.

O que foi reconhecido há poucos dias seu colega republicano John McCain, que confessou que "se estivesse aqui Ted Kennedy, tudo seria mais simples".

Sua partida deixa os democratas sem a "super maioria" de 60 das 100 cadeiras do Senado que impedia os republicanos de bloquearem projetos legislativos.

Seu substituto sairá de uma eleição especial a ser realizada em Massachusetts em cerca de cinco meses, na qual provavelmente ganhará um democrata, dado o perfil do eleitorado do estado.

Até então, o partido estará debilitado no Senado, a não ser se a legislatura estadual atenda ao pedido que o próprio Kennedy realizou no dia 2 de julho em sua última carta pública e dê ao governador, Deval Patrick, que é democrata, o poder de designar a uma substituição temporário.

À parte da cadeira número 60, os democratas perderam um homem com uma capacidade inigualável para movimentar os bastidores para que os projetos de lei fossem adiante.

Kennedy defendia em público ideais que repelem a boa parte dos conservadores do país, mas ao mesmo tempo estendeu a mão a seus colegas republicanos para impulsionar iniciativas nas quais havia interesses comuns, desde imigração até saúde.

"Tinha carinho e respeito de muitos republicanos. Suas declarações de pêsames de hoje são sinceras e não forçadas", comentou Larry Sabato, professor de política da Universidade da Virgínia.

O senador Orrin Hatch, por exemplo, lhe qualificou como "um prezado amigo", e McCain afirmou que Kennedy é "insubstituível na instituição que amava (o Senado) e no afeto de seus membros".

Com sua morte, o Partido Democrata e Obama perderam um homem querido inclusive por seus oponentes, em um momento em que necessitam todos os apoios possíveis para uma reforma do sistema de saúde que aspira ser histórica.

A esquerda do país, em particular, ficou órfã e sentirá a ausência da voz forte e marcante de Kennedy em muitos debates mais além dos da saúde. EFE cma/fk

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG