Além de ter de explicar presença de terrorista em seu território, governo paquistanês perde poder em negociações com os EUA

A descoberta de que Osama bin Laden estava escondido na cidade de Abbottabad, a cerca de uma hora da capital do Paquistão, representa um golpe devastador para o Exército e as agências de inteligência do país. Após anos negando que o líder da Al-Qaeda estivesse em seu território, o governo paquistanês agora tenta preservar as já frágeis relações com os Estados Unidos.

Autoridades dos dois países disseram que o Paquistão não participou da ação americana que matou Bin Laden no domingo. Nesta terça-feira, o diretor da CIA (agência de inteligência americana), Leon Pannetta, explicou à revista “Time” que a decisão de não informar as autoridades paquistanesas foi tomada pelo temor de que isso prejudicasse a operação .

Embora o governo americano tenha tomado cuidado para não acusar diretamente o Paquistão de dar abrigo a Bin Laden, há fortes indícios de que a Casa Branca vai exigir respostas sobre como o líder terrorista pôde viver tanto tempo no país – e em uma fortaleza localizada perto de uma academia militar.

Para John O. Brennan, principal assessor do presidente Barack Obama para segurança nacional, é “inconcebível” que Bin Laden não tenha tido algum tipo de apoio no Paquistão. O major James R. Helmly, principal autoridade americana no país entre 2006 e 2008, concorda: “Alguém tinha de saber”, afirmou, em entrevista ao jornal “The New York Times”. “Se era alguém do topo, não há como dizer ainda.”

Para Hasan Askari Rizvi, um analista militar em Lahore, o Paquistão sai prejudicado seja qual for a resposta para uma questão crucial: se o governo sabia ou não que Bin Laden estava no país. “Se não sabia, foi incompetente. Se sabia, estava fazendo jogo duplo", afirmou, ao mesmo jornal.

Tensão

Mesmo antes da morte de Bin Laden, a tensão entre os Estados Unidos e o Paquistão já era crescente. O governo paquistanês vinha pressionando por uma diminuição no número de agentes de inteligência americana no país e pela divulgação de informações claras sobre as atividades da CIA em seu território.

Para analistas, o “poder de barganha” do Paquistão nessa negociação diminui consideravelmente após a morte de Bin Laden. A avaliação americana é de que a operação que localizou Bin Laden deixa clara a importância das missões secretas da CIA no território paquistanês.

Ao mesmo tempo, o ‘caso Bin Laden’ pode enfraquecer o Paquistão em disputas com dois vizinhos: o Afeganistão e a Índia.

O Afeganistão terá mais subsídios para continuar afirmando que as raízes do terrorismo não estão no território do vizinho, e que a comunidade internacional deve focar no Paquistão se quiser avançar na guerra contra o extremismo.

Já a Índia terá mais razões para pressionar por uma ação militar direta contra grupos militantes como o Lashkar-e-Taiba, que o país acusa de estar por trás dos atentados de Mumbai, em novembro de 2008.

Oportunidade

Analistas ressaltam, porém, que a preocupação dos Estados Unidos com o Paquistão – uma nação com armas nucleares e índices crescente de grupos militantes – vai além de Bin Laden. Os americanos certamente gostariam de continuar contando com a cooperação do Paquistão para dar continuidade à luta contra o terrorismo e para pôr fim à guerra do Afeganistão.

Para Juan Zarate, que foi assessor de segurança nacional do ex-presidente George W. Bush (2001-2009), o governo Obama pode usar o episódio para conseguir que o Paquistão seja mais agressivo contra grupos militantes em seu território.

“A morte de Bin Laden pode piorar as relações que já são complicadas ou oferecer ao Estados Unidos uma oportunidade de melhorar a cooperação”, afirmou Zarate ao “The New York Times”. “Neste momento, os paquistaneses estão amedrontados e envergonhados.”

Também em entrevista ao jornal americano, um oficial de segurança paquistanês que não quis ser identificado mostrou-se aliviado com a declaração de alguns integrantes da Casa Branca - como a secretária de Estado, Hillary Clinton -, que ao comentar a morte de Bin Laden agradeceram os esforços do Paquistão ao longo dos anos. “O fato de a cooperação ter sido citada mostra que a relação vai sobreviver”, afirmou.

Com BBC e "The New York Times"

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.