Morte de Bin Laden enfraquece, mas não elimina Al-Qaeda

Líder simbólico é morto no momento em que organização luta para mostrar relevância para manifestantes do mundo árabe

The New York Times |

A morte de Osama bin Laden deixa a Al-Qaeda sem seu fundador e líder espiritual num momento em que a organização terrorista está lutando para mostrar sua relevância para os manifestantes democráticos no Oriente Médio e no norte da África.

Especialistas dizem que Bin Laden já havia se tornado uma figura amplamente simbólica nos últimos anos e que tinha pouco ou nenhum papel direto na difusão do terrorismo mundial. Apesar de sua morte ser significativa, ela não vai acabar com a ameaça de uma cadeia cada vez mais potente e autosuficiente de filiais regionais da Al-Qaeda no norte da África e no Iêmen ou de uma vanguarda autoradicalizada nos Estados Unidos, afirmam estes especialistas.

"Claramente, isto não acaba com a ameaça da Al-Qaeda e seus afiliados", disse Juan Zarate, uma autoridade em contraterrorismo no governo do presidente George W. Bush. "Mas isso priva a Al-Qaeda de seu líder principal e da coesão ideológica que Bin Laden criava”.

Reuters
Zawahiri era o braço direito de Bin Laden e mentor intelectual dos ataques de 11 de setembro

Oficiais do governo Obama disseram que, apesar da influência cada vez menor de Bin Laden nas operações cotidianas nos últimos anos, a sua captura ou morte foi uma prioridade da inteligência militar e dos oficiais de contraterrorismo do momento em que Barack Obama tomou posse.

Oficiais do governo preveem que sem a orientação espiritual de Bin Laden – e sua capacidade quase mística de inspirar seguidores ao desafiar e conseguir fugir das forças americanas e aliadas que o caçavam – a capacidade dos líderes da Al-Qaeda em obter armas nucleares, químicas e biológicas e usá-las contra os Estados Unidos irá diminuir.

"Bin Laden foi o único comandante da Al-Qaeda em seus 22 anos e foi amplamente responsável pela mística da organização, seu apelo entre os jihadistas violentos e seu foco na América como um alvo terrorista", disse uma importante autoridade do governo.

O oficial afirmou que o vice de longa data de Bin Laden, o egípcio Ayman al-Zawahri, "é muito menos carismático e não tão respeitado dentro da organização”. Ele provavelmente vai ter dificuldade em manter a lealdade dos seguidores de Bin Laden, em grande parte árabes do Golfo Pérsico que são fundamentais no fornecimento de combatentes, dinheiro e apoio ideológico da organização.

De fato, a Al-Qaeda de hoje é uma organização muito diferente daquela que Bin Laden presidia quando organizou os ataques de 11 de Setembro de 2001. É muito menos hierárquica e mais difusa, e a sede principal da Al-Qaeda no Paquistão está sob ataque contundente de aeronaves da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês).

Enquanto isso, filiais regionais floresceram na África, Iraque e Iêmen. Todas foram abençoadas pessoalmente por Bin Laden, mas cada uma tem desenvolvido a sua própria estratégia de captação de recursos e métodos de recrutamento.

Essa foi a visão de Bin Laden desde o início. Al-Qaeda significa "a base" em árabe. Seu plano era criar filiais terroristas que seguissem orientação ideológica ou material de apoio da matriz, mas fossem criadas para ser praticamente autosustentáveis desde o início.

Michael E. Leiter, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, descreveu recentemente a filial da Al-Qaeda no Iêmen como a mais ameaçadora para os Estados Unidos. Ela treinou e implantou o jovem nigeriano que tentou explodir um avião da Northwest Airlines no dia 25 de dezembro de 2009. Em outubro passado, as autoridades impediram um plano do grupo do Iêmen de explodir aviões de carga em Chicago usando cartuchos de impressora que estavam cheios de explosivos.

Campos de treinamento terrorista criados pela Al-Qaeda e outros grupos na região amplamente desgovernada das áreas tribais do Paquistão devem continuar a gerar dezenas de militantes treinados em explosivos e armas automáticas, assim como o jovem marroquino detido na semana passada na Alemanha e acusado de conspirar para atacar o sistema de transporte de uma grande cidade alemã.

Anos antes da morte de Bin Laden – ele era raramente ouvido nos últimos anos, apenas em gravações de áudio ruim – a marca da Al-Qaeda estava nas mãos de Al-Zawahri e, mais significativamente, Anwar Al-Awlaki, um líder da organização na Península Arábica, que nasceu no Novo México e tem cidadania americana e do Iêmen.

Al-Awlaki usa o inglês americano em seus discursos online para chegar aos extremistas e recrutas em potencial no ocidente. Seus seguidores e outros radicais podem aprender tudo o que precisam sobre a construção de uma bomba através de instruções na internet.

Oficiais americanos e europeus dizem temer mais a ameaça “solitária” de Al-Awlaki, que é muito mais difícil de detectar do que, digamos, a equipe que planejou durante anos atacar o World Trade Center e o Pentágono. Este é um momento pouco promissor para a Al-Qaeda, que busca explorar o fervor desencadeado nos protestos democráticos no Oriente Médio e na África. Os manifestantes, no entanto, em grande parte ignoraram o apelo da Al-Qaeda de usar a violência para derrubar ditadores e déspotas.

"A Al-Qaeda tem se esforçado nos bastidores da revolução árabe, sua popularidade nos países árabes e islâmicos tem diminuído e há divisões internas sobre a direção do movimento", disse Zarate.

Um oficial de alto escalão do governo Obama ecoou esse sentimento, colocando-o desta maneira: "Embora a Al-Qaeda possa não fragmentar imediatamente, a perda de Bin Laden põe o grupo em um trajeto de declínio que vai ser difícil de reverter”.

Mas embora dê essa avaliação, ele e outros oficiais americanos alertam para uma possível série de atentados contra os Estados Unidos e os americanos no exterior para provar que o movimento ainda é uma ameaça.

"A Al-Qaeda e seus simpatizantes podem tentar responder com violência para vingar a morte de Bin Laden", disse o oficial, "e outros líderes terroristas podem tentar acelerar seus esforços para atacar os Estados Unidos”.

Por Eric Schmitt

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