Morte de adolescente palestino eleva tensões na véspera da Nakba

Jerusalém volta a ser palco de confrontos entre Israel e palestinos um dia antes da Nakba, quando há a promessa da Terceira Intifada

EFE |

A morte de um adolescente palestino em Jerusalém Oriental por supostos tiros de um colono judeu elevou as tensões no Oriente Médio na véspera do Dia da Nakba (Catástrofe), quando os palestinos lembram o exílio e o trauma que representou para eles a criação do Estado de Israel, em 1948.

Um dia antes de previstos milhares se reunirem em Ramallah, sede do governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP), para o principal evento político do dia, Jerusalém voltou a ser neste sábado palco de violentos confrontos, os mais recentes durante o funeral do jovem Milad Said Ayyash, de 17 anos.

Pelo menos dois palestinos ficaram feridos nos arredores das muralhas de Jerusalém, quando a polícia usou gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar um grupo de jovens que, depois do funeral, lançou pedras contra veículos israelenses.

Também houve distúrbios nos arredores de uma pequena colônia judaica de Jerusalém Oriental, conhecida como Beit Moscowitz, perto do local onde, na sexta-feira, o jovem Milad foi baleado - segundo testemunhas, os tiros foram dados por um vigia do assentamento de Beit Yonatan, reduto de judeus ortodoxos no coração do bairro de Siloé.

Milad, que morava no bairro de Ras el Amud, foi levado ao hospital com ferimentos no abdome, mas não resistiu e morreu na sala de cirurgia, informaram na manhã deste sábado fontes do hospital Al Mukassad. "Seu estado era crítico. Fizemos 20 transfusões de sangue, mas nem assim conseguimos salvá-lo", comunicou o hospital.

Ativistas relataram à edição online do jornal Haaretz que o vigilante abriu fogo com sua pistola depois que alguém lançou um coquetel Molotov contra o edifício da colônia. "A bala extraída é de uma pistola. Esse tipo de bala é raramente usada pela polícia israelense no controle de manifestações. A bala indica, portanto, a possibilidade de o jovem ter sido baleado por um dos guardas de segurança do assentamento", disse o ativista Jonathan Pollak em comunicado.

A polícia israelense confirmou que houve disparos no local, mas indicou que não pôde fazer a autópsia do corpo porque a família do adolescente quis enterrá-lo imediatamente e "o caso ficou sob investigação".

Participaram do funeral cerca de 1 mil pessoas com bandeiras palestinas, que seguiam em procissão atrás da vítima aos cantos de "Alá é grande" e "Com vento e sangue, redimiremos nosso mártir". "Todos os moradores de Siloé se encontram no funeral. O povo está indignado. Hoje e amanhã serão dias difíceis, com violência e sangue", dizia Samir a um meio de comunicação local durante a procissão fúnebre, que partiu do bairro Ras el Amud com destino a um cemitério islâmico aos pés das muralhas de Jerusalém.

Tumultos na sexta-feira

Ayyash foi um dos dez palestinos feridos na sexta feira durante confrontos na Cisjordânia por causa do aniversário da Nakba. Centenas de jovens aproveitaram as orações para se reunir ao redor de policiais e passagens fronteiriças e lançar pedras contra as forças israelenses. Os principais enfrentamentos ocorreram em Jerusalém Oriental, onde residem mais de 200 mil palestinos.

O início dos eventos para celebrar a data foi marcado com desfiles e manifestações, em que 13 palestinos foram detidos nas últimas 48 horas pelas forças de Israel por "perturbar a ordem pública". A polícia e o Exército dispersaram aos manifestantes com balas de borracha e gás lacrimogêneo, e, em pelo menos dois casos, foram utilizadas armas de fogo.

Na quinta-feira, Israel declarou estado de alerta máximo em Jerusalém e em toda Cisjordânia por causa do risco de mais atos violentos. A polícia mobilizou um reforço de milhares de homens em Jerusalém Oriental e no norte de Israel, onde está concentrada a maioria da população árabe do país.

Mais de 760 mil palestinos fugiram perante o avanço das forças judaicas ou foram diretamente expulsos por elas há 63 anos.

Atualmente, a ONU estima em cerca de 4,8 milhões o número de refugiados e seus descendentes. A resolução 194 da ONU dispõe que "os refugiados que desejarem voltar aos seus lares e viver ali em paz com seus vizinhos devem ser autorizados o quanto antes".

Todos os governos israelenses se opuseram à aplicação do direito de regresso dos refugiados, com medo de que a população judaica passe a ser minoria.

Nova intifada?

O alto dirigente palestino Abbas Zaki disse na quinta-feira que seu povo pode começar uma nova Intifada (revolta palestina contra a ocupação israelense) no domingo, inspirado pela atual mobilização no mundo árabe contra regimes autocráticos. “(Israel) não poderá calar o povo depois do exemplo dados pelos povos árabes contra os seus governos“, afirmou à rádio das Forças Armadas de Israel.

Entre as medidas adotadas por Israel para reforçar a segurança e evitar distúrbios, pela primeira vez técnicos das Forças de Defesa de Israel monitorarão as redes sociais do Facebook e Twitter para acompanhar o planejamento dos manifestantes. As redes sociais foram decisivas nas revoltas da Tunísia e Egito .

Em principios de março, o Facebook tinha uma página dedicada a promover as maiores manifestações pró-palestinas e pela Nakba, com o apelo à realização da Terceira Intifada . De acordo com a IPS, agência de notícias independente e cooperativa de jornalistas com sede em Roma, a página logo atraiu centenas de milhares de apoios.

Facebook retirou a página do ar em 29 de março, quando 500 mil prometiam juntar-se aos protestos do domingo, mas logo apareceram novas páginas com apelos semelhantes.

O portal em árabe www.3rdintifada. com, do ativista egípcio Mounib Mohamed, de 26 anos, propôs manifestações pacíficas nesta sexta e sábado diante de embaixadas e consulados israelenses pelo mundo, chamando o domingo de "Dia da Libertação". Posteriormente, porém, sugeriu demonstrações apenas diante das embaixadas de Israel no Egito e Jordânia, os únicos países árabes com quem o Estado judeu tem relações diplomáticas. Forças de segurança egípcias dispersaram os protestos no Cairo.

O grupo radical islâmico Hamas, que domina a Faixa de Gaza e descarta mudar seu programa no que se refere ao objetivo de destruir Israel, apoiou a ideia da Terceira Intifada. Em 4 de maio, o grupo assinou com o partido laico Fatah um acordo para formar um governo de união nacional depois de 5 anos de divisão. Ainda não está claro qua política adotarão em relação a Israel.

A primeira Intifada palestina durou de 1987 até os acordos de Oslo, Noruega, em 1993, que autorizaram o líder palestino Yasser Arafat (morto em 2004) a criar a Autoridade Palestina, num passo intermediário ao estabelecimento do Estado palestino independente. A segunda Intifada durou de 2000 a 2005.

*Com AFP, EFE e colaboração de Nahum Sirotsky, de Israel

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