Morte assombrou Ingrid Betancourt no cativeiro na Colômbia

Por Alisha Laventure BOGOTÁ, Colômbia (Reuters) - Ingrid Betancourt iniciava cada dia de seu cativeiro às 4h da madrugada -- com frio e deprimida, mas acordada no escuro à espera de ouvir as palavras de incentivo a serem ditas pela mãe dela, no rádio.

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A refém era assombrada por pensamentos suicidas e por temores de que seria morta. Com frequência acorrentada a uma árvore pelo pescoço, dentro de acampamentos secretos montados em áreas de mata e tomados por insetos e lama, Ingrid Betancourt perdeu o apetite.

Muitas das vezes em que comeu, ela vomitou.

'A morte é a companheira mais fiel de um refém', afirmou a repórteres na quinta-feira. 'Nós vivíamos ao lado da morte. E a tentação do suicídio sempre nos acompanhou.'

Mantida durante seis anos pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), ela era a principal moeda de troca de um grupo de 44 reféns de destaque que a mais antiga guerrilha da América Latina desejava usar para obter a libertação de rebeldes presos.

Na quarta-feira, porém, essa cidadã franco-colombiana sequestrada enquanto fazia campanha para a Presidência da Colômbia foi repentinamente libertada quando os militares conseguiram enganar os guerrilheiros, convencendo-os a libertar Betancourt e mais 14 reféns.

Ciente de que outros reféns haviam sido mortos ao longo dos anos, em meio a esse antigo conflito, a ex-candidata temeu por sua vida, com medo de que as Farc a matassem ou que morresse em um choque com as forças do governo.

De forma semelhante à maioria dos reféns, ela disse que as mensagens de amigos, parentes e simpatizantes divulgadas por rádio foram fundamentais para sua sobrevivência e ajudaram a combater o tédio dos dias nos quais os guerrilheiros obrigavam-na a recolher-se a sua rede de dormir às 18h.

'UMA DOCE OPÇÃO'

O que fez com que prosseguisse mesmo nos momentos mais sombrios, contou, foram as lembranças de sua família, e em especial as da filha e do filho.

Junto de seus filhos novamente, na quinta-feira, a ex-candidata, 46, prometeu grudar neles e nunca deixar de cobri-los de beijos.

Os dois impediram-na de afogar-se no que descreveu como sendo um mar de desesperança. 'Em cada aniversário deles, eu lhes cantava 'Parabéns pra Você'. Mesmo se trouxessem um biscoito ou a refeição tradicional de arroz e feijão, eu fingia que se tratava de um bolo e comemorava o aniversário deles em meu coração', escreveu certa vez Betancourt, do cativeiro.

'Eu sinto como se meus filhos estivessem com suas vidas em suspenso, esperando que eu saísse dali.'

A ex-candidata começou a fumar enquanto no cativeiro. Ela usava alguns dos cigarros para obter produtos de primeira necessidade como um pedacinho de sabonete ou remédios para sua dor de estômago.

A refém tomava banho completamente vestida para não ser vista nua pelos homens encarregados de vigiá-la. Questionada sobre se havia sofrido algum tipo de violência sexual, Betancourt respondeu: 'Eu tive experiências dolorosas. Mas não quero falar disso aqui, neste momento de alegria.'

As tentativas dela de escapar renderam-lhe punições -- ficar acorrentada pelos pescoço, ficar sem comida ou caminhar entre acampamentos descalça.

Em uma carta escrita para sua mãe e divulgada no ano passado, a ex-candidata afirmou: 'Eu tentei manter minha cabeça acima da linha d'água. Mas, mãe, eu comecei a desistir. O meu sofrimento diário e o sofrimento de todo mundo parecem fazer da morte uma doce opção.'

(Reportagem adicional de Luis Jaime Acosta)

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