Morte de Kirchner deixa Argentina com futuro político incerto

Considerado o verdadeiro poder por trás do governo da mulher, Kirchner morre e põe em xeque projeto de perpetuação do clã no poder

Marsílea Gombata, iG São Paulo | 27/10/2010 19:57

  • Mudar o tamanho da letra:
  • A+
  • A-

Visto como o verdadeiro poder por trás do Executivo da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, o ex-líder Néstor Kirchner (2003-2007) morreu nesta quarta-feira deixando aos argentinos o sentimento de que perderam seu próprio presidente. A morte repentina, que aconteceu a cerca de um ano da eleição presidencial de outubro de 2011, também deixa à população a incerteza e a insegurança sobre o futuro político do país.

“Para quem é a favor ou contra Kirchner, o clima é o mesmo: morreu o presidente”, afirmou ao iG o analista político Silvio Santamarina. Segundo o ex-editor do jornal “Crítica”, por causa do papel preponderante do ex-presidente no atual governo, a morte de Kirchner levanta dúvidas sobre qual rumo tomará sua mulher, Cristina Fernández de Kirchner, cuja presidência é descrita pelo ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003) como de “duplo comando”.

A opinião é compartilhada pelo especialista Gerardo López Alonso, da Universidade Austral, em Buenos Aires. Para ele, Cristina, que já enfrentava dificuldades pelo descontrole dos índices de inflação, pelas denúncias de corrupção e pela disputa com a imprensa e o setor agrícola, vê agora o projeto de perpetuação no poder com o marido com grandes chances de fracassar.

Eleito presidente em 2003, Kirchner - líder do Partido Justicialista (peronista) - desistiu de concorrer à reeleição em 2007, apesar de estar em fim de mandato com uma popularidade de 50%, o mais alto nível de aceitação desde a volta da democracia, em 1983. Na época, especulou-se que ele havia favorecido Cristina, que então ocupava uma cadeira no Senado, com a perspectiva de garantir ao clã de 12 anos a 16 anos consecutivos no poder.

Para Santamarina, esse plano está acabado porque o peronismo – estilo de governar herdado do ex-presidente Juan Perón (1946-1955 e 1973-1974), que tentou colocar na chapa presidencial a mulher Eva Perón – é personalista. “A garantia da continuidade de um projeto kirchnerista teria chances com Kirchner, mas sem ele fica praticamente impossível. A grande dúvida que temos agora é se Cristina concorrerá ou não à reeleição”, disse.

Reeleição

Antes mesmo da morte repentina do ex-líder, uma das principais discussões no clã Kirchner era justamente se o ex-presidente deveria se lançar ou não à disputa eleitoral. Com as pesquisas colocando a vitória em dúvida, explicou Santamarina, o mais provável era que Kirchner apoiasse alguém de confiança para conseguir continuidade política.

Um dos possíveis nomes seria o do governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, vice-presidente durante o mandato do ex-presidente. Mas o fato de Scioli não ter respaldo entre todos os aliados enfraqueceria a candidatura.

O deputado opositor Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-1989), o ex-governador da Província de Santa Fé Carlos Reutemann e o prefeito da capital Buenos Aires, Mauricio Macri, também querem entrar na disputa pela presidência no ano que vem. O mesmo acontece com o vice-presidente, Julio Cobos, que rompeu com Cristina em 2007, mas continua no poder.

Segundo o especialista López Alonso, a morte de Kirchner e as eleições do próximo ano abrem espaço para uma disputa interna no peronismo e também fortalecem o sindicalismo argentino. Nesse cenário, o líder sindical Hugo Moyano – líder do maior sindicato do país, a Confederação Geral do Trabalho, que ocupa a chefia interina do peronismo em Buenos Aires - mostra-se como um dos nomes que vêm ganhando capital político.

Segundo pesquisas recentes, Kirchner e Cristina tinham individualmente 30% das intenções de voto. Em segundo lugar, com uma diferença de 20 pontos porcentuais, apareciam Cobos, Macri e Alfonsín. Mais abaixo nas sondagens estava Duhalde, antigo mentor político de Kirchner, juntamente com outros dirigentes do peronismo federal.

Para Damián Fernández, especialista em comunicação governamental, deve ganhar a disputa de 2011 quem propuser manter os avanços do modelo kirchnerista corrigindo seus excessos. “As maiores chances estarão entre aqueles que propuserem manter o crescimento da economia, a política social ativa, a presença do Estado em setores estratégicos, mas corrigindo a confrontação política e a falta de respeito à independência dos poderes”, disse.

    Notícias Relacionadas



    Previsão do Tempo

    Previsão Completa

     
    • Hoje
    • Amanhã

    INDICADORES ECONÔMICOS

    Câmbio

    moeda compra venda var. %

    Bolsa de Valores

    indice data ultimo var. %
    • Fonte: Thomson Reuters
    Ver de novo