Kluger sofria do mal de Alzheimer e morreu no dia 31, aos 92 anos, por causa de complicações decorrentes de uma bronquite

Foi anunciada nesta segunda-feira a morte de Jerzy Kluger, amigo de infância de João Paulo 2º que teve uma grande influência na revolucionária relação do pontífice com os judeus.

Kluger, de 92 anos, morreu no dia 31 em um hospital de Roma, na Itália, por causa de complicações decorrentes de uma bronquite. Ele sofria do mal de Alzheimer e vivia em um asilo da zona leste da capital italiana. Ele foi enterrado nesta segunda-feira.

O papa João Paulo 2º é visto ao lado do amigo de infância Jerzy Kluger, em foto de 2000
AP
O papa João Paulo 2º é visto ao lado do amigo de infância Jerzy Kluger, em foto de 2000

Karol Wojtyla - que se tornaria o papa João Paulo 2º - foi colega e amigo de Kluger do começo da escola primária até o final do ensino médio, na cidade de Wadowice, no sul da Polônia.

"O jovem Karol Wojtyla aprendeu muito sobre o judaísmo com Kluger", disse à Reuters o escritor italiano Gianfranco Svidercoschi, que foi assessor do falecido pontífice e lançou em 1993 um livro que aborda essa amizade, chamado "Carta a um Amigo Judeu".

"O jovem Wojtyla visitava a casa de Kluger em Wadowice, ajudava Jerzy com seus estudos, particularmente de latim, e começou uma amizade que influenciaria suas relações com os judeus pelo resto da vida dele", disse Svidercoschi.

Os dois amigos perderam contato quando a Polônia foi invadida pela Alemanha nazista, em 1939, e só voltaram a se reencontrar em 1965.

Durante a guerra, Kluger e seu pai foram presos pelos russos e enviados para um "gulag" (campo de trabalhos forçados) na Sibéria, de onde ele só seria solto após a invasão alemã à União Soviética.

Ele então aderiu às forças polonesas que combateram junto com os Aliados na África e na Europa, sob o comando do general Wladyslaw Anders, e participou na crucial batalha de Monte Cassino, ao sul de Roma.

Já no final da guerra, ao saber que sua mãe fora morta no campo de extermínio de Auschwitz, ele decidiu permanecer na Itália. Estudou engenharia em Turim e depois se mudou para a Inglaterra.

Voltou a viver na Itália no começo da década de 1960, trabalhando com comércio exterior, e retomou o contato com Wojtyla quando o então arcebispo de Cracóvia foi a Roma para participar do Concílio Vaticano Segundo - até então, o futuro papa achava que seu amigo judeu havia morrido na guerra, e vice-versa.

Quando Wojtyla se tornou o primeiro papa não-italiano em 455 anos, em 1978, a amizade se intensificou, e Kluger ajudou a organizar reuniões do pontífice com seus ex-colegas de escola, em Roma ou durante visitas de João Paulo 2º a Wadowice.

Kluger estava na sinagoga de Roma quando João Paulo 2º fez sua histórica visita de 1986, referindo-se aos judeus como "nossos adorados irmãos mais velhos".

Na primeira visita do papa a Israel, em 2000, o amigo também estava na plateia que o viu discursar no memorial Yad Vashem, que homenageia vítimas do Holocausto. A amizade perdurou até a morte de João Paulo 2º, em 2005.

Com Reuters

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