E não é porque sou vizinho da Sarah Jessica Parker, Meryl Streep, Kate Winslet, Julianne Moore e Scarlet Johansen..

.infelizmente elas não fazem parte do meu cotidiano e mesmo quando passam na minha frente só reconheço quando alguém me dá o toque como o garagista que me mostrou a Meryl Streep. Nossos carros também são vizinhos.

Sei que moro na felicidade porque deu no New York Times
, resultado de uma pesquisa em vinte cinco mil casas de Nova York, feita pela prefeitura. Os moradores do Village, Soho e Little Italy são os mais felizes da cidade.

Quando mudei para a 9th Street no Village, em 1980, a felicidade ainda não morava lá. Ela já tinha morado ali durante muitas décadas no começo do século, quando o Village era o bairro dos boêmios, dos pintores, intelectuais, liberais ricos, acadêmicos e estudantes, mas eu cheguei junto com o crack, que em quinze minutos saía do Harlem, Brooklyn e Bronx e invadia as nossas praças.

Um outro morador famoso tinha sido o Paulo Francis, com um belo apartamento e magnífica vista do norte da cidade, dominada pelo Empire Estate no meio da sal,a mas ele estava de penetra. Era um prédio só para professores da NYU. Foi denunciado e expulso pela mulher de um colega jornalista e, a partir daí, ficou amargo com a mulher e com o bairro: endereço de pseudos, ele dizia. Pseudos e perigosos. As duas principais praças, Washington Square e Union Square, à noite, eram ocupadas por sem tetos, consumidores e comerciantes de drogas, prostitutas e assaltantes.

Para quem morava no vigésimo andar de um prédio com porteiro e se mudou para um apartamento de segundo andar, o choque maior não foi a falta da paisagem do East River. O meu foi a falta de grades nas minhas janelas de frente e fundos. Quem vem do Brasil estava, como eu, acostumado com muro de 2 metros e grades pela casa inteira, em Beagá.

Naquela década da escalada do crime, eu levantava de noite e patrulhava a casa. Minha arma era uma barra de ferro. O andar de baixo, no nível da rua, também não tinha grades e o bairro inteiro era e continua assim. Nunca se enjaulou.

Pior foi quando mudei para outro apartamento também de primeiro andar e as janelas não estavam prontas. A construtora que fazia a reforma cobriu com plástico que levou quase três semanas para ser substituído por vidro. Eu dormia no sofá da sala ao lado do telefone, com minha barra.

A prosperidade e a limpeza da década de 90 trouxeram a explosão imobiliária ao bairro, liderada em parte pela New York University, que comprou dezenas de prédios a preço de banana e é acusada de tirar o caráter do bairro, inflacionar os preços e não pagar impostos.

Muitas outras forças, entre elas uma organização de comerciantes, atuaram na renascença da vizinhança e transformaram a Union Square num dos endereços mais valorizados da cidade. O primeiro hotel do país vendido por mais de US$ 1 milhão de dólares o quarto, o W, fica na esquina da praça.

Segurança, cafés de rua, teatros Off Broadway, música ao vivo, comércio, diversidade étnica - haja asiático - são algumas das virtudes atribuídas ao Village, mas eu não conheço nenhum bairro que ofereça tanto, tão perto.

Numa caminhada de dez minutos, tenho três universidades, quase cem restaurantes, entre eles alguns dos melhores da cidade, 56 telas de cinema, duas das maiores livrarias e não sei quantas lavanderias chinesas.

A granfinagem começou a invadir a o bairro no fim dos noventa. Etiquetas caras, lojas de departamento e jeans de US$ 200 ameaçando o comércio barato, padarias, açougues, lanchonetes e queijarias. Eram negócios de família, mas a feira da Union Square só de produtos supostamente locais, não só resistiu como prosperou, competindo com dois supermercados gigantescos. Hoje, naturalmente, estamos todos ameaçados de falência.

Christine C. Quinn, líder da Câmara municipal e uma das dez políticas mais poderosas do país, é outra força do bem na vizinhança. Quando os ônibus de turismo congestionaram a estreita Perry Street para que turistas pudessem ver e fotografar onde morava a principal personagem da série Sex and the City
, dona Christine proibiu os ônibus na rua.

Barulho é a queixa número um dos mais felizes de NY. Nunca foi meu problema. Depois da minha neurose com o plástico, instalei vidros à prova de som, bala, calor, frio. Nem consigo abrir as malditas janelas.

As janelas do fundo são normais e dão para o quintal do vizinho, que nos últimos três dias recebeu uma visita adorável. Por volta de seis da manhã, uma coruja começaa a cantar. Deve ter lido a matéria do Times
.

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