O presidente da Bolívia, Evo Morales, pediu nesta sexta-feira à oposição que aceite iniciar o diálogo para conter a violenta crise política, que já deixou pelo menos oito mortos e cerca de 100 feridos, enquanto aumentam os apelos internacionais pela paz no país.

Além do crescente clima de tensão interna vivido pelos bolivianos nos últimos dias, Morales ainda se envolveu em uma dura altercação diplomática com os Estados Unidos ao ordenar a expulsão do diplomata americano em La Paz, Philip Goldberg, acusando-o de conspirar e promover a divisão na Bolívia.

Como resposta, os EUA decidiram expulsar o embaixador boliviano em Washington no dia seguinte.

Morales afirmou que "continuará apostando no diálogo, pela dignidade e pela unidade do país, apesar da provocação" que, segundo seu governo, é estimulada por governadores e líderes civis de cinco dos nove departamentos bolivianos, onde a semana foi marcada por violentos protestos.

O presidente boliviano confirmou o convite feito ao governador oposicionista de Tarija, Mario Cossío, que se encontrará com Morales representando seus colegas de Santa Cruz, Beni, Pando e Chuquisaca para iniciar negociações que levem ao fim da crise política e da violência.

Cossío aceitou se reunir nas próximas horas desta sexta-feira com o presidente Morales.

"Estarei no Palácio de Governo (em La Paz)", afirmou em entrevista à imprensa o governador de Tarija.

A crise política na Bolívia se aprofundou devido à irreconciliáveis visões de país defendidas pelo presidente, de um lado, com seu projeto constitucional de viés estatizante e indígena, e pela oposição, de outro, que luta pela formação de governos autônomos de cunho liberal nos departamentos.

Cossío declarou que "esta é a última oportunidade para que o país se encaminhe a um processo de reconciliação e deixe para trás o risco de confronto".

Vários países latino-americanos, além da Igreja Católica, de ativistas dos direitos humanos e de representantes de organizações multilaterais como a OEA, as Nações Unidas e a União Européia (UE) pediram a governo e oposição uma trégua, apontando o diálogo como solução para aliviar a crise política.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou-se alarmado com a escalada de violência no país andino, e exortou "a todas as partes envolvidas que atuem com moderação".

Nesta sexta-feira, a Bolívia restabeleceu o bombeamento de gás natural para Brasil e Argentina através dos gasodutos, informou o ministério boliviano de Hidrocarbonetos, após a ocupação de usinas e campos de gás no sudeste do país por grupos civis de oposição ao presidente Morales.

Para o Brasil, anunciou o ministério, o fornecimento subiu novamente a "30,5 milhões de m3", depois dos incidentes locais que levaram à drástica queda no abastecimento para 11 milhões de m3.

Na quarta-feira, houve uma explosão em um duto perto do povoado de Yacuiba, fronteiriço com a Argentina, o que foi classificado de "atentado terrorista" pelo Executivo boliviano.

As Forças Armadas da Bolívia, por sua vez, rejeitaram nesta sexta-feira eventuais "intromissões externas de qualquer tipo" em assuntos internos, em resposta ao anúncio do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de que apoiará "qualquer movimento armado" caso seu colega Evo Morales seja derrubado.

Ao presidente Chávez, "dizemos que as Forças Armadas rejeitam enfaticamente intromissões externas de qualquer tipo e não permitirão que nenhum militar ou força estrangeira pise em território nacional".

Na quinta-feira, Chávez disse em Caracas que "se derrubarem Evo, se o matarem, saibam os golpistas da Bolívia que estarão me dando sinal verde para apoiar qualquer movimento armado na Bolívia".

O presidente venezuelano chegou a dizer que seu governo se consideraria autorizado a "realizar mobilizações de qualquer tipo" na Bolívia diante de um golpe de Estado.

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