Por Carlos Alberto Quiroga LA PAZ (Reuters) - O presidente da Bolívia, Evo Morales, entrou na segunda-feira no quinto dia da sua greve de fome para pressionar a oposição de direita a aprovar uma lei relativa à implementação da nova Constituição.

Após resolver-se no domingo a principal reivindicação da direita --a criação de um novo cadastro de eleitores--, os parlamentares opositores surpreenderam na segunda-feira com novas exigências, como a renúncia do presidente da Corte Nacional Eleitoral (CNE), José Luis Exeni. Isso retarda um acordo definitivo.

"O pedido de renúncia do presidente da CNE mostra uma vez mais que a direita radical não quer eleições, mas isso terá de mudar cedo ou tarde", disse a jornalistas o porta-voz de Morales, Iván Canelas.

Morales volta suas baterias para a confirmação do pleito de dezembro, em que buscará um novo mandato e tentará obter um amplo controle do Congresso, o que lhe permitiria aprofundar as reformas esquerdistas que promove nos últimos três anos --como a nacionalização dos campos de gás que abastecem o Brasil e a Argentina.

No fim de semana, ele aceitou o recadastramento dos eleitores, como pedia a oposição, e sugeriu que a nova identificação seja digitalizada e biométrica, algo que a CNE havia rejeitado previamente por falta de tempo e dinheiro --só neste ano, a operação exigiria 35 milhões de dólares.

A decisão presidencial, acatada a contragosto pela CNE, facilitou a retomada do diálogo com vistas à segunda e definitiva votação do projeto da lei eleitoral. Na segunda-feira, após três dias de suspensão dos debates, ambas as partes anunciaram várias vezes que o acordo era iminente, mas ele não saiu.

Canelas disse que Morales está disposto a manter a greve de fome "até as últimas consequências..., até que haja lei para as eleições". O porta-voz disse que cerca de 2.000 pessoas em toda a Bolívia seguem Morales no jejum, iniciado na Quinta-Feira Santa.

"O presidente está bem, vocês sabem que ele é muito forte, é de ferro, e nestes dias de jejum não deixou de trabalhar no Palácio, com atos e em permanentes reuniões," disse Canelas no mesmo salão onde Morales realizava um protesto em companhia de cerca de 15 sindicalistas.

O porta-voz acrescentou que Morales decidiu destinar ao recadastramento eleitoral uma verba de 120 milhões de bolivianos (16,9 milhões de dólares), originalmente reservada neste ano para a compra de um novo avião presidencial.

"O atual avião presidencial, que é um instrumento de trabalho muito importante, tem mais de 30 anos e já representa um perigo, mas o presidente renuncia à mudança de aeronave como mais uma demonstração da sua decisão de que nada impeça as eleições", disse Canelas, para quem agora "a oposição não tem mais pretextos para frear a lei eleitoral."

A oposição, liderada pelo presidente do Senado, Oscar Ortiz, mantém sem quorum desde quinta-feira a sessão bicameral do Congresso em que se debate e vota a lei que regulamentará a eleição geral de dezembro e as eleições regionais de abril de 2010.

Dessas eleições resultará uma Assembleia Plurinacional, com vagas reservadas para os povos indígenas minoritários, em lugar do atual Congresso.

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