Morales lança jornal a poucos dias de referendo na Bolívia

A apenas poucos dias do referendo que vai decidir se a Bolívia aceita ou não uma nova Constituição, o presidente Evo Morales lançou, na última quinta-feira, o jornal estatal Cambio (Mudança), em meio a uma grande disputa política com os veículos de comunicação privados do país. É por causa das humilhações e mentiras dos meios de comunicação que lançamos o Cambio, um jornal que se soma ao Canal 7 de televisão e à rede Pátria Nova (de emissoras de rádio), disse Morales, referindo-se aos outros veículos estatais do país.

BBC Brasil |

Segundo ele, a oposição também terá espaço no novo diário, mas suas declarações serão acompanhadas de "esclarecimentos" de fontes oficiais.

A capa do primeiro número do jornal traz uma foto do presidente rodeado por crianças e a manchete: "Bolívia caminha para sua refundação", em uma referência ao referendo constitucional, que acontece no próximo domingo.


Evo mostra um exemplar do Cambio em cerimônia na quinta-feira / AP

Polarização

Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, o lançamento do jornal estatal acontece em um dos momentos mais delicados da relação entre o governo boliviano e os meios de comunicação do país.

"Existe hoje uma polarização entre os meios de comunicação privados, que estão muito próximos da oposição, e os estatais, que apresentam a versão oficial do governo. Isto se parece mais com propaganda (do que com jornalismo)", afirma Erick Torrico, professor de Teoria da Comunicação da Universidade Andina Simón Bolívar e integrante da Fundação Unir Bolívia, que estuda a imprensa do país.

Torrico lembra que, em seu discurso de posse, em janeiro de 2006, o presidente Evo Morales dedicou vários minutos a fazer críticas à imprensa.

"Hoje, a relação do presidente com a imprensa é muito tensa. Mas, já naquela ocasião, ele criticava o setor por estigmatizá-lo como líder dos cocaleiros e porque, claramente, os meios de comunicação tinham mostrado preferência por seu concorrente, (o ex-presidente) Jorge Quiroga", afirma.

Segundo Torrico, a situação de tensão é tão grande que o presidente Evo Morales costuma dizer que a imprensa é a sua "única oposição".

Para Torrico, a parcialidade da imprensa é comum no país.

"A unilateralidade da informação nas matérias é quase um defeito típico da cobertura local. Costuma-se citar apenas uma fonte, o outro lado é citado somente no dia seguinte", diz.

Liberdade de expressão

Já Carlos Cordero, professor de Ciências Políticas da Universidade Mayor San Andrés, afirma que a atual situação de conflito entre meios de comunicação e governo é inédita no país, apesar de a maioria dos ex-presidentes terem feito críticas à imprensa quando estavam no poder.

"No entanto, foi Morales quem chamou os meios de comunicação de seus opositores. A criação deste jornal, Cambio, com um preço tão baixo (cerca de R$ 0,60) e com dinheiro do Estado, gera concorrência desleal e coloca em risco a liberdade de expressão no país", diz.

Cordero ainda afirma que Morales foi "mimado" pela imprensa e hoje "não suporta" as críticas.

"Quando Morales ou suas medidas são criticados, ele acha que isso ocorre porque ele é pobre e indígena e que querem tirá-lo do poder", diz.

Para Erick Torrico, no entanto, as falhas e "precipitações" ocorrem dos dois lados.

Existem hoje na Bolívia 20 jornais, cerca de 1,5 mil emissoras de rádio e 450 de TV (incluindo as comunitárias).

Segundo a Fundação Unir Bolívia, 85% dos meios de comunicação no país são privados.

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