Morales e governadores rebeldes avançam lentamente para trégua na Bolívia

O presidente Evo Morales e quatro governadores da oposição caminhavam com lentidão, e mesmo desconfiança, em direção a um acordo para aliviar a crise política no país, com a formação de três comissões para discutir as questões que atualmente dividem a Bolívia, após três semanas de violentos distúrbios, que deixaram 19 mortos.

Redação com agências internacionais |

Morales, pressionado por duros protestos da oposição em cinco Estados, discutiu durante 15 horas com seus rivais políticos maneiras de pacificar o país em Conchabamba. Os debates entre Morales e os governadores Rubén Costas (Santa Cruz), Mario Cossío (Tarija), Savina Cuéllar (Chuquisaca) e Ernesto Suárez (Beni) começaram na quinta-feira e prosseguirão nesta sexta-feira.

"Estamos buscando um acordo, não é fácil, leva tempo, há posições muito difíceis de resolver", afirmou Cossío.

As negociações acontecem a portas fechadas em um complexo turístico a cerca de três quilômetros da cidade. Além dos líderes políticos, estão presentes representantes da Igreja católica e delegados e diplomatas da Unasul, Organização dos Estados Americanos (OEA), Organização das Nações Unidas (ONU) e União Européia, que se limitam a observar a reunião.

"As negociações foram duras, houve intervenções fortes", disse uma fonte que participava da reunião, marcada pela desconfiança dos dois lados da mesa, que desde janeiro tentam iniciar um diálogo, sem sucesso.

Cossío, no entanto, explicou que desta vez foram formadas três comissões técnicas sem uma agenda de trabalho, apenas com a missão de discutir como redigir um acordo para ser levado ao presidente Morales e às autoridades regionais para aprovação.

O vice-ministro da Descentralização, Fabián Yaksic, confirmou que "há três comissões começando os trabalhos nesta sexta-feira: uma sobre as reformas constitucionais e as autonomias regionais e as outras sobre os recursos do IDH".

O diálogo sofreu sobressaltos com as notícias que chegavam de La Paz, onde o governador oposicionista de Pando, Leopoldo Fernández, teve o pedido de habeas corpus negado e foi enviado para uma penitenciária pública, acusado de envolvimento no caso da morte de 16 camponeses durante a onda de violência na semana passada.

Fechados durante horas na tensa reunião, os líderes políticos tomaram conhecimento também do grande interesse do exterior pelo desenrolar da crise boliviana, e das expectativas em torno do trabalho dos observadores internacionais, cuja missão é evitar que governo e oposição se entrincheirem de vez em suas posições.

Crise na Bolívia

Os departamentos bolivianos de Tarija, Santa Cruz, Beni, Pando e Chuquisaca (que juntos foram a região conhecida como "Meia Lua") pleiteiam maior autonomia e têm sido palco há meses de protestos contra Morales.

A oposição quer que o presidente Evo Morales volte atrás em sua decisão de cortar os repasses para Estados mais pobres do dinheiro obtido com impostos sobre gás e petróleo. O presidente diz estar usando o dinheiro para custear uma pensão para os idosos do país.

Os Estados de oposição, os mais ricos da Bolívia, argumentam que são responsáveis pela produção da maior parte das commodities que geram o imposto e, por isso, deveriam ser mais beneficiados por eles, para que possam investir na melhoria da condição de vida de suas populações.

Os protestos também são contra a nova Constituição, cujo texto foi aprovado no fim do ano passado sem o apoio da oposição.

O texto da Carta Magna dá mais poder aos indígenas bolivianos - que representam 60% da população do país, de acordo com o último censo - e confirma a nacionalização dos recursos naturais.

Segundo o analista da BBC James Painter, a Constituição ameaça os negócios e as elites agrárias do departamento de Santa Cruz - onde vive 25% da população boliviana. As propostas para limitar as posses de terra e promover a reforma agrária provocaram fortes reações dos latifundiários locais.

Para que entre em vigor, o texto ainda precisa ser aprovado em um referendo, que foi convocado por Evo Morales para dezembro.


Mapa político da Bolívia

*Com AFP BBC Brasil e Reuters

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