Morales descarta uso do Exército e convida governadores opositores ao diálogo

O presidente da Bolívia, Evo Morales, descartou nesta sexta-feira a possibilidade de convocar as Forças Armadas para apaziguar os ânimos no país e pediu aos governadores da oposição uma mesa de diálogo para solucionar a crise política.

Redação com agências internacionais |


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O presidente disse que "continuará apostando no diálogo, na dignidade e na unidade do país, apesar da provocação dos governadores e líderes da sociedade civil de cinco dos nove departamentos", onde os protestos contra seu governo continuam, e convidou os opositores a dialogar hoje mesmo em La Paz para encontrar uma solução para as três semanas de conflito nas regiões autonomistas.

O governante fixou o convite para as 16h (17h de Brasília) durante um ato de comemoração do aniversário do município de Quillacollo, no departamento (estado) de Cochabamba.

Morales revelou que algumas organizações sociais pedem "mão-de-ferro", mas afirmou que é o primeiro a proibir as Forças Armadas e a Polícia a usar armas de fogo contra o povo, referindo-se aos bloqueios de estradas e invasões violentas de instalações públicas em regiões rebeldes.

Diálogo

Pouco antes, em La Paz, o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, afirmou que enviou uma carta ao governador de Tarija, Mario Cossío, porta-voz do grupo de governadores opositores, convidando-lhe a visitar a sede do Governo hoje mesmo.

Cossío pediu na véspera a Morales para que ambas as partes se dêem "uma última oportunidade" e para que o presidente escolhesse "dia, lugar e a hora para assentar as bases do diálogo e iniciar o processo de reconciliação".

Em seu discurso, Morales comentou que se surpreendeu com o pedido de Cossío e reafirmou que "o diálogo está aberto" e pode ser realizado na tarde de hoje no Palácio de Governo em La Paz, mas pediu que sirva para analisar "razões" e "não imposições".

Oito mortos e temor de guerra civil

A morte de oito pessoas em confrontos no departamento (Estado) de Pando, na quinta-feira, despertaram em diferentes setores o temor de que ocorra uma guerra civil na Bolívia.

"Se nada mudar, estamos caminhando para uma guerra civil de baixa intensidade, mas guerra civil. Civis brigando contra civis e sem a intervenção das forças de segurança", disse à BBC Brasil o analista Gonzalo Chávez, diretor de mestrado para o desenvolvimento da Universidade Católica Boliviana.

"É uma situação limite. As disputas eram com paus e pedras, mas agora tem gente armada." As mortes em Pando teriam sido provocadas por tiros, segundo o prefeito (governador) Leopoldo Fernández.

Golpe civil

No fim da noite de quinta-feira, o vice-presidente do país, Álvaro García Linera, acusou uma "quadrilha de terroristas" de arquitetar um "golpe de estado cívico-empresarial".

"Estamos diante de uma quadrilha de terroristas e assaltantes que está colocando em marcha um golpe de estado cívico-empresarial. Eles estão dispostos até a matar os bolivianos", acusou. Linera responsabilizou a Prefeitura de Pando pelas mortes.

O presidente do Comitê Pró-Tarija, Reynaldo Bayard, também falou em "guerra civil", declarou. "Se continuar assim, vamos acabar numa guerra civil".

Às lágrimas diante das câmeras de televisão, em La Paz, a ministra da Justiça, Celima Torrico Rojas, pediu "diálogo" e "o fim da violência". "Por que os civis acham que só eles podem chegar a determinados cargos, e nós, indígenas, não?", indagou.

Onde estão os confrontos

Os departamentos (Estados) bolivianos de Tarija, Santa Cruz, Beni, Pando e Chuquisaca (que juntos foram a região conhecida como "Meia Lua") pleiteiam maior autonomia e têm sido palco há meses de protestos contra Morales.

Os departamentos rejeitam a nova Constituição, defendida pelo presidente Evo Morales, e exigem que o governo devolva às províncias cerca de US$ 166 milhões em royalties do petróleo e gás relocados para a previdência social.

Eles ficam no leste da Bolívia e são os departamentos mais ricos do país, graças principalmente à produção de gás e soja. O departamento de Tarija, por exemplo, possui mais de 80% das reservas de gás bolivianas.

O oeste da Bolívia, onde vive a maior parte da população indígena, é a região em que o presidente conta com mais apoio.


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