Bruxelas, 9 jun (EFE).- O presidente da Bolívia, Evo Morales, ameaçou hoje bloquear as negociações comerciais entre a União Européia (UE) e a Comunidade Andina (CAN), além de impor restrições nos vistos europeus caso se aprovasse a direção de retorno aos imigrantes ilegais, que ele considera a direção da vergonha.

"Promover a liberdade de circulação de mercadorias e finanças, enquanto vemos prisões sem julgamento para nossos irmãos que tentam circular livremente é negar os fundamentos da liberdade e dos direitos democráticos", afirma Morales em carta dirigida às autoridades da UE, à qual teve acesso a Agência Efe.

O governante considera a "direção de retorno", tal qual como é conhecida hoje, como uma "direção da vergonha", por isso solicita à UE para que elabore uma política migratória "respeitando os direitos humanos", e que permita "manter um dinamismo proveitoso para ambos os continentes".

Os vinte e sete membros da UE aprovaram na quinta-feira passada por unanimidade a "direção de retorno" de imigrantes ilegais, que ainda deve ser aprovada pelo Parlamento Europeu o dia 18 para sua entrada em vigor.

O presidente boliviano se dirige aos eurodeputados para assegurar que, caso fosse aprovada, nos submeteríamos a uma "impossibilidade ética de aprofundar as negociações com a UE", enquanto se sentiriam no direito de aplicar aos cidadãos europeus "as mesmas obrigações de visto impostas aos bolivianos desde 2007".

Para justificar as advertências, Morales disse que está "sob uma intensa pressão da Comissão Européia para aceitar uma profunda liberalização do comércio, dos serviços financeiros, da propriedade intelectual ou dos serviços públicos", para assim garantir a segurança jurídica das empresas européias.

"Onde está a 'segurança jurídica' para nossas mulheres, adolescentes, crianças e trabalhadores que buscam melhores horizontes na Europa?", questiona Morales.

O líder lembra que "chegaram os europeus, maciçamente, sem visto nem condições impostas pelas autoridades" aos países da América Latina e América do Norte para "explorar riquezas e transferi-las à Europa".

Além disso, os emigrantes "representam a ajuda ao desenvolvimento que não é dada pelos europeus", diz Morales, acrescentando que na Bolívia as remessas anuais seriam de mais de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 1,1 bilhão ou um terço de suas exportações anuais de gás natural.

"Infelizmente, o projeto de 'direção de retorno' complica terrivelmente esta realidade", segundo o presidente boliviano.

Para Morales a lei "torna os imigrantes bodes expiatórios de problemas globais como o aquecimento global, da poluição ou do desaparecimento dos recursos energéticos".

"Os problemas de coesão social sofridos pela Europa não são culpa dos imigrantes, mas o resultado do modelo de desenvolvimento imposto pelo norte, que destrói o planeta e desmembra as sociedades dos homens", conclui. EFE met/bm/plc

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