Moradores despejados por obras olímpicas protestam em Pequim

Marga Zambrana Pequim, 4 ago (EFE) - A apenas quatro dias do início dos Jogos Olímpicos de Pequim, moradores da capital chinesa despejados pelas obras olímpicas protestaram na Praça da Paz Celestial, no centro da cidade. Segundo testemunhas, um grupo de entre 20 e 50 desabrigados fez um protesto pacífico ao sul da praça, no bairro de Qianmen, que nos últimos anos foi demolido para ser transformado em área comercial e de negócios que hoje inclui cafeterias Starbucks e lojas da Nike e da Rolex. Os manifestantes protestam porque não querem aceitar a indenização oferecida por suas casas, mas continuar vivendo nelas, disse à Agência Efe um morador ligado à organização do protesto. Segundo a fonte, a Polícia não deteve nenhum dos manifestantes, mas os dispersou. A indenização, de US$ 1.170 por metro quadrado, está muito abaixo do preço de mercado em uma das áreas mais valorizadas da capital chinesa, com preços comparáveis aos de Londres, diante da proximidade dos Jogos.

EFE |

Procurada pela Efe, a Polícia do distrito se negou a dar declarações, alegando que ainda investiga o protesto.

Desde que Pequim foi escolhida sede dos Jogos em 2001, este tipo de protestos é freqüente na capital chinesa, onde, segundo a ONG Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (COHRE, em inglês), vinculada à ONU, mais de 1,5 milhão foram desalojados em virtude das obras olímpicas.

O número foi negado várias vezes pelo Governo chinês, que afirma que os despejados são apenas alguns milhares do total de quase 20 milhões de pequineses e que, além disso, foram devidamente indenizados.

O problema não é novo em uma sede olímpica, mas desproporcional se comparado aos 2.700 moradores desalojados em Atenas e aos 2.500 de Barcelona. Além disso, supera os recordes de Atlanta (30 mil) e Seul, onde a realização dos Jogos em 1988 representou o despejo de 720 mil moradores sob um regime de partido único.

Para o Governo chinês, um de seus piores pesadelos está se concretizando, o de enfrentar protestos no centro da capital, quando Pequim está repleta de jornalistas estrangeiros e o regime tenta convencer que quarta maior potência econômica é capaz de realizar os Jogos e manter a "harmonia social".

Com emissoras de televisão de todo o planeta concentradas em Pequim, vai ser difícil para os 1,5 milhão de soldados que controlam a segurança dos Jogos manter sua habitual atitude de reprimir à força qualquer suspeita de dissidência.

De fato, até agora as emissoras de televisão tinham sido proibidas de fazer filmagens na praça, uma das maiores do planeta e também das mais militarizadas, mas por ocasião do evento olímpico os canais podem pedir permissão com um dia de antecedência para gravar o local.

Enquanto em Pequim este grupo de moradores tentava atrair a atenção para seus problemas, em Xinjiang, uma região autônoma com 8 milhões de uigures de origem turcomana e credo muçulmano, ocorria um ataque com explosivos em um posto alfandegário.

As autoridades suspeitam que possa se tratar de um atentado terrorista, do qual tinham sido advertidos há um ano para justificar o desdobramento militar em massa representado pelos Jogos, e apontam os grupos separatistas da região como possíveis autores.

Além destes riscos, o regime chinês teme que ativistas de apoio à independência do Tibete ou em defesa dos direitos humanos realizem protestos semelhantes aproveitando o evento olímpico, por isso hoje Pequim é uma cidade sitiada.

Assim, 100 mil soldados do Exército de Libertação Popular, 400 mil policiais e voluntários e moradores que fazem as vezes de "delatores" estão distribuídos pela capital, sobrevoada por helicópteros que sobrevoam em círculos o centro de Pequim. EFE mz/ev/db

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