José Luis Paniagua. Tegucigalpa, 23 set (EFE).- Depois de 48 horas de toque de recolher em Honduras, a população fez filas em frente aos supermercados de Tegucigalpa para comprar mantimentos, enquanto o presidente deposto Manuel Zelaya e seus seguidores continuam acolhidos na embaixada do Brasil na capital do país.

Filas quilométricas se formaram rapidamente no comércio, postos de gasolina, bancos e outros estabelecimentos, todos em busca de reabastecimento. O cenário demonstra que três dias após o retorno do líder deposto, Honduras vive uma situação de total anormalidade.

"Primeiro vou comprar combustível para depois ir comprar comida, sem combustível não há comida", disse à Agência Efe, um comerciante de 50 anos, enquanto aguardava em uma enorme fila em um posto de gasolina da capital.

O porta-voz da Polícia, Orlin Cerrato, enfatizou que o tumulto na cidade já causou a morte de uma pessoa ainda não identificada e deixou outras dezenas feridas. Ocorreram também saques a pelo menos dois supermercados.

Esta é a primeira morte confirmada oficialmente pelas autoridades desde que Zelaya retornou ao país na segunda-feira, quase três meses depois de os militares o destituírem do poder à força.

Milhares de apoiadores do líder deposto voltaram a ocupar o entorno da Universidade Pedagógica em Tegucigalpa, ponto habitual do início de manifestações, por volta das 10h na hora local (13h, no horário de Brasília), pouco tempo após o Governo de fato der uma trégua de sete horas no toque de recolher.

"A presença do presidente motivou as pessoas à luta e vamos continuar impondo resistência", disse à Agência Efe, o professor Juan Barahona, membro da direção da Frente de Resistência contra o golpe, da qual fazem parte várias organizações da sociedade civil e sindicatos.

Barahona enfatizou que o protesto em diferentes pontos da capital tem dois principais objetivos: o retorno do governante deposto ao poder e a convocação de uma Assembleia Constituinte.

O dirigente reforçou que Zelaya vai lutar pelos seus direitos e não deixará o país em direção aos Estados Unidos, como chegou a ser comentado nas últimas horas.

Os seguidores do chefe de Estado deposto fizeram manifestações nesta quarta-feira nos arredores da embaixada brasileira, onde dezenas de policiais e militares mantêm vários cordões de segurança.

Desde cedo, homens da Polícia e do Exército impedem à aproximação da imprensa da sede diplomática e controlam com rigor o trânsito de pessoas, usando detectores de metais e inspecionando até mesmo o interior de caixas de alimentos e roupas que estão sendo levadas à embaixada, segundo constatou a Efe.

Para Luis Fernando López, arquiteto, "a situação é ruim, por isso vou tratar de comprar combustível e alimentos para ficar um longo período recolhido em casa com a minha família".

López contou que durante estes dias, trabalhou em casa, mas que durante a pausa no toque de recolher aproveitou para reuniu-se com outros companheiros para se inteirar dos últimos acontecimentos.

"Como a cozinheira faltou durante estes dias, estou aprendendo a cozinhar", revelou.

Um dos seguidores de Zelaya, Manuel Antonio Díaz, lembrou à Efe que "muita gente vive do dia em Honduras", país em que 75% da população esta abaixo da pobreza.

"Dois dias sem sair à rua para muita gente neste país é uma condenação", disse.

O grande volume de pessoas que saíram as ruas foi tanto que as autoridades foram à rádio e a televisão pedir calma à população, comunicando que não haverá falta de combustível e os supermercados têm estoques para 14 dias. EFE jlp/dm

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