Ana Cárdenes. Jerusalém, 16 abr (EFE).- O enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, George Mitchell, deixou claro hoje a Israel que o Governo do presidente americano, Barack Obama, considera que não há outra solução para a área a não ser a criação de um Estado palestino.

"Reiterei que a política dos EUA favorece uma solução de dois países, que prevê um Estado palestino vivendo em paz junto ao Estado judeu de Israel", disse Mitchell após seus primeiros contatos com a nova Administração conservadora israelense que, até agora, evitou se comprometer com uma solução deste porte.

Os EUA não deixarão o Executivo israelense se acomodar e, embora este tenha assumido há apenas duas semanas, Mitchell assinalou que seu país "espera ver esforços para a obtenção de uma completa paz em toda a região", informou a versão digital do jornal "Ha'aretz".

A "completa paz em toda a região" exclui o ambíguo conceito de "paz econômica" utilizado até agora pelo recém empossado primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e exige que haja negociações de paz não só com os palestinos, mas também com a vizinha Síria.

"Estamos comprometidos com dois Estados para dois povos e atuaremos para isso", disse Mitchell.

Por outro lado, Netanyahu disse ao enviado dos EUA que "espera que os palestinos reconheçam primeiro Israel como um Estado judeu, antes de falar de dois Estados para dois povos", informou a versão on-line do jornal "Ha'aretz", citando uma fonte próxima ao primeiro-ministro.

O movimento islâmico Hamas, que ganhou as últimas eleições legislativas palestinas de 2006 e, desde junho de 2007, governa de fato na Faixa de Gaza, reiterou várias vezes que não reconhecerá Israel, mas assinaria um acordo de paz durável com este país.

Netanyahu declarou a Mitchell que seu país "deve preservar sua segurança" e que, apesar do Estado judeu "não estar interessado em governar os palestinos, deve garantir que o processo político não provoque um segundo 'Hamastão' em Israel", em referência ao Hamas, segundo a edição digital do jornal "Yedioth Ahronoth".

Os pedidos para que o novo Executivo israelense persista no objetivo da criação de um Estado palestino não foram obstáculos para que Mitchell reafirmasse o ferrenho apoio dos EUA ao Estado judeu.

"O ponto de abertura da política externa americana é um compromisso absoluto e forte com a segurança do Estado de Israel e de seu povo", disse o enviado ao presidente israelense, Shimon Peres, com quem se reuniu hoje em Jerusalém.

Peres preferiu não dar importância à preocupação despertada pelas evasivas do Governo de Netanyahu quanto a aderir abertamente à solução de dois Estados e disse a Mitchell que "nenhuma porta foi fechada rumo à paz" e que "este será um ano decisivo no Oriente Médio".

Segundo o chefe do Estado judeu, "a política do presidente Obama para conseguir a paz na região é igual à posição israelense. Israel quer a paz, mas não comprometerá sua segurança".

Peres e Mitchell também falaram sobre o Irã, ocasião em que o israelense aproveitou para assegurar ao enviado americano que "todos os comentários quanto a um possível ataque de Israel contra o Irã são incorretos: a solução com o Irã não é militar".

Esta é a terceira visita de Mitchell à região desde que chegou ao cargo em janeiro e a primeira desde a entrada do novo Governo de Israel, cujo ministro de Assuntos Exteriores, Avigdor Lieberman, disse em sua posse não estar vinculado ao processo de paz de Annapolis, impulsionado pelos EUA e que tinha como objetivo a criação de um Estado palestino.

Segundo um comunicado da chancelaria israelense, em sua reunião com Mitchell, Lieberman - que também é vice-primeiro-ministro e principal apoio de Netanyahu na coalizão de Governo - reviu os processos de paz ao longo dos últimos anos e apontou que o "enfoque tradicional" não alcançou até agora "nem resultados, nem soluções".

De acordo com Lieberman, os primeiros-ministros israelenses anteriores estavam preparados para fazer "grandes concessões" e, no último Governo, as políticas nesse sentido "tiveram como resultado a segunda guerra com o Líbano e a ruptura de relações com o Catar e a Mauritânia", entre outros maus resultados.

"O Governo israelense terá que formular novas ideias e um novo enfoque", disse o ministro ao enviado americano, a quem declarou que seu país "espera um apoio absoluto da comunidade internacional em matéria de segurança".

Após se encontrar hoje com o chefe das Forças Armadas de Israel, Gabi Ashkenazi, e a líder da oposição local, Tzipi Livni, Mitchell conclui sua agenda oficial em Israel com um encontro com Netanyahu, quando discutirá a postura de seu Executivo em relação à paz.

Amanhã, o enviado americano se reunirá em Ramala com as autoridades palestinas e, depois, viaja ao Egito, de onde segue para a última escala de sua viagem pelo Oriente Médio, Arábia Saudita.

EFE aca-amg/bba

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.