Místico e moderado, o sufismo busca seu espaço em um Paquistão conservador

Igor G. Barbero Lahore (Paquistão), 5 mai (EFE).

EFE |

- Em um país lastimado pelo fundamentalismo islâmico, uma corrente mística e moderada do Islã, o sufismo, tenta seguir adiante com o auxílio de importantes líderes políticos que decidiram promovê-lo no Paquistão.

Cerca de um milhão dos 170 milhões de habitantes do Paquistão praticam uma doutrina que, para muitos, foi responsável pela expansão do Islã no subcontinente indiano, através de suas belas melodias, propiciando o florescimento das artes muçulmanas.

Apesar da proibição de música, festas e drogas pela vertente ortodoxa do Islã, o coquetel da noite sufi é acatado. Realiza-se toda quinta-feira, concentrando milhares de seguidores desta corrente na populosa cidade oriental de Lahore, considerada capital cultural do Paquistão.

"O sufismo é uma viagem em direção a Deus através de cerimônias que incluem o recital, o canto e a música instrumental, aromas de incenso, êxtases e, finalmente, o transe como momento culminante", explica à Agência Efe Michael Kashif, um experiente guia da cidade, a mais populosa da província de Punjab.

Na província vizinha, Sindh, o novo chefe do Governo, Qaim Ali Shah, anunciou em um de seus primeiros discursos sua intenção de promover o sufismo, começando pela organização de uma conferência no meio do ano.

Até o primeiro-ministro Yousuf Raza Gillani, que cresceu na cidade punjabí de Multan -considerada um foco do sufismo no Paquistão- pertence a uma família espiritual descendente de um santo sufi e, freqüentemente, é dito sobre ele que sua visão política é muito influenciada por esta corrente.

Outro de seus notáveis adeptos é o vice-presidente do governista Partido Popular do Paquistão, Amin Fahim.

"Todos são no fundo sufis, tanto os xiitas quanto os sunitas", clama, risonho, Malik Karamat, proprietário de um albergue de Lahore, que se transformou em um ponto de encontro de mochileiros aventureiros.

Malik leva, há muito tempo, os recém chegados para presenciar os impressionantes Qawwali Party - cantos em devoção - que se prolongam por várias horas no santuário do orador sufi Data Ganj-Bakhsh.

Até 40 grupos se sucedem sobre uma plataforma de madeira, elevando a voz e fazendo soar instrumentos de percussão e um pequeno acordeão, sob o olhar atento de centenas de fiéis.

"Alguns dos músicos vêm de muito longe só para a ocasião, e não devem permanecer no palco por mais de cinco minutos", explica Kashif.

"Os grupos podem ser famosos ou não; o objetivo é lhes conceder a mesma oportunidade para atuar", acrescenta Kashif, que destaca que nesse lugar atuaram, em várias ocasiões, o célebre músico paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, seu pai e seu avô.

As multidões premiam em cada ato os intérpretes com umas poucas rúpias, não mais de dez (aproximadamente quinze centavos de dólar), em um improvisado ritual no qual uma pessoa recolhe as notas e as lança ao ar em uma "chuva de dinheiro" destinada a atrair fortuna.

Assim que anoitece em Lahore, massas de jovens irão a templos sufis, como o santuário de Baba Shah Jamal, para mergulharem, até quase o amanhecer, em um relaxado ambiente.

Vários começam a acender, em um ritmo frenético, cigarros de haxixe que depois vão passando uns aos outros, em um ritual no qual podem chegar a fumar mais de uma dúzia ao mesmo tempo.

Os tambores dos irmãos Saeen - um dos quais é surdo -, cuja imagem adorna a entrada com um enorme pôster, elevam a paixão de alguns rapazes, que se levantam e dançam exaltados, balançando as cabeças a velocidades inesperadas.

"Antes de vir, muitos ingerem drogas como suco de folha de cannabis, que lhes ajuda a entrar facilmente em estado de transe", explica Kashif, observando que, apesar de as drogas serem proibidas no Paquistão e seu consumo duramente penalizado, "a Polícia faz vista grossa durante as noites sufis de quinta-feira". EFE igb/bm/gs

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