Ministros do Egito atendem Mubarak e apresentam renúncia

Mudanças no gabinete ministerial não devem frear onda de manifestações que começou na terça-feira

iG São Paulo |

AFP
Manifestantes são vistos próximos a tanques do Exército no centro do Cairo (29/01)

Ministros que integram o governo do Egito apresentaram neste sábado sua renúncia, atendendo a um pedido do presidente Hosni Mubarak, que busca frear os protestos sem precendentes que ocorrem no país desde terça-feira. De acordo com a televisão estatal, os ministros apresentaram os pedidos em uma reunião comandada pelo premiê Ahmed Nazif.

A continuidade dos protestos neste sábado, porém, parece indicar que a mudança ministerial não será suficiente para acabar com a onda de insatisfação. No discurso em que disse ter pedido que os ministros se demitissem, Mubarak não fez nenhuma menção à possibilidade de ele mesmo deixar o governo.

A chefe da Anistia Internacional, Salil Shetty, disse que a decisão de Mubarak de mudar o governo é "quase uma piada". "As pessoas querem mudanças fundamentais e constitucionais", afirmou.

O grupo opositor egípcio Irmandade Muçulmana também afirmou que a medida anunciada pelo líder é "apenas um passo". "Há um conjunto de reivindicações, como a dissolução do Parlamento e eleições livres", afirmou o porta-voz do grupo, Walid Shalabi.

"A destituição do gabinete é só um passo. Desejamos um governo que tenha interesse em lançar as liberdades públicas, que resolva o problema do desemprego e que não trabalhe em benefício de um só grupo", ressaltou.

Em discurso transmitido pela TV estatal, Mubarak, que está no poder desde 1981, disse que os protestos não estariam ocorrendo caso seu governo não tivesse introduzido liberdades civis e de imprensa no país. “Garanto que estou trabalhando pelo povo e proporcionando liberdade de expressão à medida que se respeita a lei”, disse. “Há uma linha tênue entre a liberdade e o caos”.

Mais protestos

Centenas de manifestantes continuam no centro do Cairo, capital do Egito, no quinto dia consecutivo de protestos no país. A manifestação contra o governo do presidente Hosni Mubarak acontece principalmente na praça Tahrir, epicentro dos protestos de sexta-feira, que está cercada por tanques das Forças Armadas.

Há informações de disparos e colunas de fumaça branca, de gás lacrimogêneo, podem ser vistas pela cidade, enquanto as forças de segurança tentam dispersar os manifestantes. Cairo é o principal foco das manifestações, que começaram na terça-feira e ganharam força na sexta, quando Mubarak colocou o Exército nas ruas para conter os protestos, algo que não acontecia no país desde 1985.

Neste sábado, o centro do Cairo mostra sinais dos distúrbios da véspera. Na praça Abdel Menem Riad, dois micro-ônibus e uma caminhonete da Polícia estavam carbonizados.

Nos arredores do Museu Egípcio, que conserva as relíquias arqueológicas mais importantes do país, pelo menos meia dúzia de veículos, um tanque e uma viatura policial estavam queimados. Outras regiões da cidade também mostravam sinais de violência, saques e incêndios, como a avenida Al Haram, que leva às pirâmides de Giza e que amanheceu cercada por militares e grupos de jovens. Entre os estabelecimentos saqueados estão os cassinos Al Lail e El Andalus e o hotel Europa.

Além do Cairo, as cenas de violência e caos ocorreram em pelo menos outras nove cidades ou regiões do país. Em meio à violência, as autoridades das forças de segurança do Egito informaram que o opositor egípcio Mohamed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz em 2005 e ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), está sob prisão domiciliar. A polícia lhe informou que ele não pode deixar sua residência no Cairo depois de ter participado das manifestações.

Segundo fontes médicas, ao menos 13 pessoas morreram em Suez e cinco morreram no Cairo em confrontos na sexta-feira, o que eleva para 26 o total de mortes ocorridas desde que os protestos se iniciaram, na terça-feira. No entanto, autoridades ouvidas pela agência Associated Press, que não quiseram ser identificadas, disseram que pelo menos 25 manifestantes e 10 policiais morreram nos protestos desta semana.

Neste sábado, o serviço de telefonia celular, que estava bloqueado desde a manhã de sexta-feira, começou a ser restabelecido. Ainda não se sabe se o acesso à internet, que também tinha sido bloqueado, já foi normalizado. O governo egípcio negou ter sido responsável pela interrupção dos serviços.

Estados Unidos

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, conversou nesta sexta-feira com Hosni Mubarak, e pediu que ele respeite os direitos da população e evite o uso de violência contra manifestantes pacíficos.

Obama disse ter conversado com Mubarak por cerca de meia hora, logo após o pronunciamento transmitido pela TV estatal do Egito, em que o líder egípcio anunciou a dissolução do governo.

"À medida que a situação continua a se desenrolar, nossa primeira preocupação é evitar ferimentos ou perda de vida. Então eu quero ser bem claro em pedir que as autoridades egípcias que evitem o uso de qualquer tipo de violência contra manifestantes pacíficos", disse Obama. "Ao mesmo tempo, aqueles que protestam nas ruas têm uma responsabilidade de expressar-se pacificamente. Violência e destruição não levarão às reformas que eles buscam."

O presidente americano disse que a população do Egito "tem direitos que são universais" e pediu a Mubarak que tome medidas concretas para avançar nos direitos do povo egípcio e implementar as reformas prometidas em seu pronunciamento. "Reprimir ideias nunca foi uma maneira bem-sucedida de fazê-las desaparecer."

Antes da manifestação de Obama, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, havia dito que os Estados Unidos poderão revisar sua ajuda ao Egito com base no desenrolar dos eventos nos próximos dias.

Obama disse ainda que este momento de volatilidade deve ser transformado em um momento de oportunidade. O presidente citou a "parceria próxima" que os Estados Unidos mantém com o Egito. "Mas nós também deixamos claro que é necessário promover reformas políticas, sociais e econômicas."

Com BBC, AP, AFP e EFE

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