A Rússia só instalaará mísseis Iskander na região de Kaliningrado, encrave russo rodeado por países da União Européia, se os Estados Unidos construírem um escudo antimísseis na Europa, declarou nesta terça-feira o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov.

No domingo, Serguei Lavrov havia dito que a decisão da Rússia de instalar mísseis em Kaliningrado é um assunto interno.

"Não acho que os EUA tenham alguma coisa a ver com a instalação de sistemas russos no território russo", declarou Lavrov, citado pela agência Itar-Tass, após reunião com a secretária de Estado americana, Condoleeza Rice, no Egito.

O presidente russo, Dimitri Medvedev, anunciou na quarta-feira passada a instalação de mísseis neste encrave, em resposta aos planos de extensão do escudo antimísseis americano na Polônia e na República Tcheca.

Esta decisão gerou críticas no Ocidente: os EUA a consideraram "decepcionante" e a Alemanha disse que constitui "um mau sinal num mau momento".

Lavrov e Rice conversaram sábado em Sharm el Sheik, para tentar restaurar uma relação deteriorada. Os dois concordaram em trabalhar juntos nos temas internacionais de interesse comum, apesar das divergências em alguns deles.

Se exasperada, segundo analistas, a Rússia pode aumentar em mais de 500 km o alcance da versão modernizada do Iskander (que chega, originalmente, a até 280 km de distância) e transformar em letra morta o tratado russo-americano de 1987 sobre a proibição de Forças Nucleares Intermediárias (FNI).

Após a suspensão, por iniciativa de Moscou, do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa (FCE), o episódio representa mais um duro golpe contra os acordos de desarmamento negociados no final da Guerra Fria.

Além disso, a questão alimentaria o distanciamento entre Ocidente e Rússia, e não mudaria a situação militar, segundo especialistas.

"Este projeto de posicionar os Iskander, ao invés dos velhos Tochka, na região de Kaliningrado, remonta a 2000, e só foi adiado por falta de dinheiro", explicou Joseph Henrotin, da Rede de Estudos Estratégicos (RMES) belga.

Até o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, cujo país está diretamente envolvido, viu as declarações de Medvedev mais como "um ato político que militar".

De todo modo, os analistas se mostram divididos sobre a reação da futura administração americana ao tom intransigente de Medvedev.

Para François Heisbourg, conselheiro especial da Fundação para a Pesquisa sobre Segurança (FRS), com sede em Paris, "a manobra de intimidação russa corre o risco de se voltar contra os próprios russos".

"Se eles esperam que os Estados Unidos desistam de instalar seu escudo, estão equivocados", afirma o especialista.

E, embora os democratas não tenham o mesmo entusiasmo dos republicanos do governo de George W. Bush em relação ao projeto do escudo antimísseis, Obama é "ultra-sensível a tudo o que pode fazê-lo parecer um tipo fácil de dominar", já que sua falta de experiência internacional foi um de seus pontos fracos explorados à exaustão por seus adversários durante a campanha eleitoral, lembrou Heisbourg.

"Ele não vai querer começar seu mandato dando a impressão de que se deixa pressionar", calcula.

Para Andrew Cuchins, diretor para Rússia e Eurásia do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos de Washington, mesmo que o Kremlin cometa um novo erro de "relações públicas", isso não deve impedir que a nova administração americana modifique o foco do diálogo com Moscou.

"Uma diplomacia que não funciona com a Rússia não é viável", estimou, considerando que, se os Estados Unidos não levarem em consideração as preocupações de segurança russas, correm o risco de ver bloqueadas suas aspirações de avançar em questões de controle de armas e proliferação em nível mundial.

vvl/lm/sd

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.