Ministro francês se dispõe a discutir deportações com cardeal

Declaração é feita após a Igreja Católica ter criticado a decisão do governo da França de deportar ciganos romenos

iG São Paulo |

O ministro francês do Interior, Brice Hortefeux, afirmou nesta segunda-feira que está disposto a receber o presidente da conferência episcopal, cardeal André Vingt-Trois, para "ouvir o que ele tem a dizer" sobre a política de imigração do país. A afirmação foi feita depois de a Igreja Católica ter criticado a deportação de ciganos romenos, que começou na semana passada.

"Estou disposto a receber - se ele assim o desejar - o presidente da conferência episcopal, cardeal Vingt-Trois, acompanhado por quem quiser", indicou Hortefeux na rádio Europe 1. "Se algumas pessoas querem me ver, eu as receberei com muito gosto para ouvir o que têm para me dizer".

Neste domingo, o papa Bento 16 fez um apelo para que a França revisse a política de repatriação, também muito criticada por outros países.

"Escutei com atenção o que disse o papa", afirmou o titular, citando também outras autoridades católicas que comentaram o assunto recentemente. "Se qualquer um quiser me encontrar, estaria feliz em fazê-lo", acrescentou.

"Somos respeitosos dos direitos individuais porque, no caso dos ciganos romenos, os reconduzimos a seu país na base voluntária. Não estigmatizamos uma comunidade", defendeu.

O cardeal Vingt-Trois respondeu rapidamente ao convite do ministro, declarando à AFP que estava "disposto" a reunir-se com Hortefeux "nas próximas semanas".

Os comentários do Vaticano contra a decisão do governo francês de expulsar ciganos foram destaque na imprensa da França nesta segunda-feira. Um padre conhecido como Arthur, conhecido defensor dos ciganos, chegou a dizer que "reza para que o presidente Nicolas Sarkozy tenha um ataque cardíaco".

Ele pediu desculpas pelo comentário e disse que não deseja "a morte do presidente", mas sim que "Deus fale ao seu coração". A imprensa, no entanto, o transformou em símbolo da insatisfação "das bases da Igreja".

"O papa, o arcebispo e um sacerdote, sem papas na língua, disseram nos últimos dias que as medidas coletivas de expulsão de ciganos da França não correspondem ao ideal de fraternidade do cristianismo", afirmou um editorial do jornal L'Alsace.

"A vergonha nacional que constitui a política do governo em relação aos ciganos fez o Papa tremer", escreveu o jornal Courrier Picard.

Mais moderado, o jornal católico La Croix destacou que Bento 16 exortou peregrinos franceses a receber pessoas de qualquer origem, mas que não fez o apelo a fiéis em outros países.

"Podemos interpretar isso como uma alusão aos debates suscitados na França pelo endurecimento da política governamental em relação aos estrangeiros e aos ciganos", estimou o La Croix.

Polêmica

A França prevê a repatriação, antes do fim do mês, de 700 ciganos em situação irregular para Romênia e Bulgária no âmbito do plano de retorno voluntário a seus países de origem, uma decisão que acentua a polêmica pela política de segurança do governo.

Os deportados foram acolhidos por um programa de ajuda para retorno, que consiste em uma passagem de avião e 300 euros por adulto ou 100 euros por criança. Por causa isso, o governo francês diz que essas são deportações "voluntárias" de imigrantes em situação irregular.

No entanto, as críticas se multiplicam perante a ofensiva lançada pelas autoridades contra os ciganos, cujos acampamentos são desmantelados por todo o país. Recentemente, Sarkozy ordenou ao Ministério do Interior esvaziar e destruir no prazo de três meses a metade das instalações nas quais os ciganos vivem no país.

Em menos de um mês, já foram desmantelalos mais de 50 acampamentos, o último na manhã desta quinta-feira em Isère, sudeste da França. A administração regional divulgou um comunicado informando que foram retirados 100 ciganos em uma operação que "responde às instruções" do ministro do Interior.

Com Ansa, AFP e EFE

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