Ministro da Defesa diz que Israel pode ceder partes de Jerusalém

Cidade ficaria em "regime especial" para administração dos locais sagrados; Obama se reúne hoje com líderes palestino e de Israel

iG São Paulo |

Israel está pronto para ceder partes de Jerusalém aos palestinos como parte de um acordo de paz, disse nesta quarta-feira o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, horas antes do início de conversações diretas entre as duas partes, em Washington. Jerusalém - questão central do conflito palestino-israelense - ficaria em um "regime especial" para administrar os lugares sagrados da cidade, disse Barak em uma entrevista ao diário israelense Haaretz.

Horas após a divulgação da entrevista, porém, um assessor não identificado do primeiro-ministro de Israel, Benyamin Netanyahu, afirmou que Jerusalém deverá continuar sendo a "capital indivisível de Israel". Em outras ocasiões, Netanyahu expressou publicamente sua objeção à divisão de Jerusalém.

Ao Haaretz, Barak também declarou que a morte de quatro colonos judeus em um ataque a tiros na terça-feira em Hebron, na Cisjordânia, não deve deter o início das conversações de paz que, segundo ele, terão como base o princípio de "dois Estados para duas nações". Para ele, "o incidente é muito sério" e é "uma tentativa de impedir o início da negociação". Barak disse, no entanto, que o ataque "não pode atingir ou abalar o esforço nas negociações de paz".

Netanyahu se reunirá nesta quarta-feira na Casa Branca com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e com o presidente dos EUA, Barack Obama, para preparar as primeiras conversações diretas após 20 meses.

O objetivo do novo processo de paz é "colocar fim ao conflito e à possibilidade de qualquer reivindicação futura" e, para isso, as partes devem negociar todos os "aspectos cruciais" do conflito regional, disse o ministro da Defesa. Entre estes, Barak cita a segurança israelense, a delimitação das fronteiras do Estado palestino, uma solução para a questão dos refugiados e da disputa por Jerusalém, para muitos o ponto nevrálgico do conflito na região.

"Jerusalém Ocidental e 12 bairros judaicos que abrigam 200 mil pessoas serão nossos. Os bairros árabes, nos quais vivem cerca de 250 mil palestinos, serão deles", disse Barak, que ajudou nos trabalhos de preparação para a cúpula, patrocinada pelos EUA, acrescentando que "um regime especial regerá a Cidade Velha", a parte mais disputada de Jerusalém.

A revelação de Barak poderia indicar que o governo de Netanyahu tem interesse em fazer concessões sobre Jerusalém, incluindo a parte murada da cidade, onde fica a Mesquita de al-Aqsa, terceiro mais importante santuário do islamismo. A área da mesquita faz divisa com o Muro das Lamentações, remanescente dos antigos templos judaicos e hoje local de oração.

O plano exposto nesta quarta-feira pelo ministro da Defesa é muito similar ao negociado em 2000 na cúpula de Camp David, quando Barak era chefe de governo. O acordo fracassou após Barak rejeitar o retorno de todos os refugiados palestinos desde a criação em 1948 do Estado de Israel.

Israel conquistou na guerra de 1967 a parte oriental de Jerusalém, que estava sob controle da Jordânia, e depois a anexou, numa ação não reconhecida internacionalmente. Os palestinos querem que Jerusalém Oriental seja a capital do Estado que desejam fundar na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Negociações diretas

Apesar de as negociações diretas serem retomadas oficialmente na quinta-feira , com uma reunião de três lados, Obama quis preparar antecipadamente o terreno nesta quarta-feira com conversas com os líderes da região e um jantar, que também contará com a participação do representante do Quarteto (EUA, Rússia, União Europeia e ONU) para o Oriente Médio, Tony Blair.

AFP
Palestinas participam de protesto em Ramallah, Cisjordânia, contra retomada de negociações diretas com Israel
Obama deve manter nesta quarta-feira reuniões bilaterais com Abbas e Netanyahu, assim como com o líder do Egito, Hosni Mubarak, e o rei Abdullah da Jordânia, que foram convidados por seus "papéis críticos" no esforço de levar a paz ao Oriente Médio.

Mubarak e o rei da Jordânia não participarão do encontro de quinta-feira, mas Obama terá a oportunidade de pedir o apoio da Liga Árabe nessa nova tentativa de paz. Após as reuniões, será realizado o jantar na Casa Branca.

No dia seguinte, as negociações diretas serão relançadas formalmente com uma reunião que a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, realizará com Netanyahu e Abbas. Segundo o mediador americano George Mitchell, o processo de negociação direta em Washington nasce com o propósito de alcançar um acordo de paz no prazo de um ano.

As negociações ficaram suspensas em dezembro de 2008 após um ataque do Exército israelense na Faixa de Gaza, no qual morreram mais de 1,4 mil palestinos e 13 israelenses.

Palestinos e israelenses se sentarão sem uma agenda prévia, mas, entre os assuntos que estão pendentes desde os Acordos de Oslo de 1993, estão a demarcação das fronteiras, um acordo final com relação ao status definitivo, o status da capital de Jerusalém, os assentamentos judaicos, a situação dos refugiados palestinos e a repartição dos recursos hídricos.

Protesto

Cerca de 500 palestinos participaram nesta quarta-feira na cidade cisjordaniana de Ramallah de uma manifestação em protesto às negociações de paz. Os manifestantes foram convidados à marcha pela Coalizão Palestina Contra as Negociações Diretas, que se opõe a um diálogo de paz "realizado sob as condições impostas pelos EUA e Israel para conseguir seus próprios interesses", segundo informou a organização.

A coalizão conta com o apoio de ONGs, movimentos sociais e várias facções palestinas, entre elas a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), o Partido do Povo Palestino (PPP) e a Iniciativa Nacional Palestina (INP).

*Com Reuters, EFE e AFP

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