Mineiros se salvaram por estarem em grupo, dizem especialistas

Em situações extremas, como no acidente do Chile, é mais difícil sobreviver estando sozinho

iG São Paulo |

Parte do “milagre” conseguido pelos 33 mineiros presos em uma mina no norte do Chile, há 18 dias, deve-se também ao apoio coletivo que os trabalhadores conseguiram estando em grupo. De acordo com especialistas, as chances de sobreviver se tornam maiores quando não se está sozinho.

AP
Parente de mineiro coloca imagem de Santo Expedito e bandeira chilena próximo ao local do acidente
"É mais fácil sobreviver em grupo. Sozinho, você pode acabar ficando desesperado, achando que tudo está perdido. Em grupo, se você fraquejar, os outros vão te ajudar", explicou Michel Siffre, espeleologista e cientista, que realizou inúmeras experiências de confinamento em condições extremas.

Secretário-geral da Federação Francesa de Espeleologia, Henry Vaumoron disse ainda que “quando a sobrevivência está em jogo, o grupo tem de se ajudar”. “Em todas as experiências de sobrevivência, os problemas psicológicos são deixados de lado até que a solução seja atingida. Ante o perigo, as pessoas se controlam", revelou Vaumoron.

Uma experiência conduzida há várias décadas pela Nasa em uma equipe com autonomia total mostrou que quatro dos membros da missão não conseguiam suportar o quinto companheiro e queriam até matá-lo, explicou.

"Em situações entre a vida e morte, Darwin explica, o mais forte sobrevive. E a atitude mental é primordial. É preciso ter fé. Aqueles que acreditam em sua sobrevivência têm mais chances de sair com vida do que aqueles que se lançam à sorte", relembrou Siffre, que passou dois meses sozinho a menos de 100 metros de profundidade e a 0 grau em 1962.

Chefes

Para organizar a vida em grupo e solucionar eventuais conflitos, os "chefes" devem emergir: superior em hierarquia ou indivíduo que, em um momento excepcional, se revela um líder, segundo Siffre. As pessoas presas devem manter o mesmo ritmo de sono da superfície, já que sem a luz do dia perdemos a noção do tempo.

"As experiências realizadas em grutas longes de qualquer referência temporal mostraram que o organismo tem seu relógio biológico que começa a funcionar, dividido em 26 horas", explicou Sophie Lumineau, professora e pesquisadora de cronobiologia da Universidade de Rennes. "Mas este relógio biológico difere ligeiramente em cada indivíduo. Algumas vezes todos vão sincronizar seus relógios em um ritmo médio; em outras, um indivíduo vai impor o seu ritmo aos outros", explicou.

Graças à comunicação possível com os socorristas, pode-se informar o ritmo do mundo exterior, por exemplo, enviando comida em horários fixos. Eles poderão ter, provavelmente, iluminação com a ajuda de lâmpadas encaminhadas através de um tubo.

Alimento
Para que eles possam sobreviver, será necessário renovar o oxigênio no ar, enviar água e alimento. Eles devem se hidratar todo o tempo, bebendo líquido sem parar, já que a 33 graus, a água do corpo evapora rapidamente.

"Será preciso fornecer um alimento mais aguado a eles. Quanto menos forem ao banheiro, melhor. Quando se está preso sob a terra, é preciso enterrar os excrementos", explicou Vaumoron.

Siffre acrescentou ainda que a tendência é as vítimas terem problemas de visão quando saírem. “Constatamos um aumento da miopia, da visão de profundidade e das cores quando vivemos sem luz", explicou.

*Com AFP

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