Militares paquistaneses rejeitam desculpas da Otan por bombardeio

Porta-voz das Forças Armadas disse que o incidente ameaça a cooperação do Paquistão nos esforços pela pacificação do Afeganistão

iG São Paulo |

Um porta-voz das Forças Armadas do Paquistão rejeitou nesta segunda-feira o pedido de desculpas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) pelo bombardeio de sábado cometido pelas forças da aliança ocidental, que resultou na morte de 24 soldados paquistaneses perto da fronteira com o Afeganistão.

Leia também: Paquistão enterra soldados mortos em ofensiva, e Otan se desculpa

AP
Advogados paquistaneses fazem protesto contra ataque da Otan em Karachi nesta segunda


Em declarações ao canal local Geo TV, o general Attar Abbas expressou seu repúdio total ao ataque, recusou as desculpas da Otan e disse que o ataque ameaça a cooperação do Paquistão nos esforços pela pacificação do Afeganistão.

Abbas lembrou que já houve fatos semelhantes nos últimos três anos e que, segundo ele, já custaram a vida de 72 militares paquistaneses e deixou outros 250 feridos.

O incidente prejudica os esforços norte-americanos para debelar uma crise com o Paquistão e estabilizar toda a região, em um momento em que os EUA tentam pôr fim à guerra do Afeganistão . "Isso poderia ter sérias consequências no nível e extensão da nossa cooperação", disse o porta-voz das Forças Armadas, o general Athar Abbas, à Reuters.

Ele afirmou que os dois postos militares atacados, chamados Volcano e Golden, estavam situados a 300 metros da fronteira com o Afeganistão. Abbas garantiu que a exata localização das tropas era sabida pela Otan e que recentemente a área tinha sido livre dos militantes.

Abbas disse que o bombardeio da Otan durou duas horas, apesar de alertas feitos por postos de fronteira paquistaneses por meio de uma linha telefônica criada justamente para evitar incidentes de "fogo amigo".

Somando um novo elemento às tensões, a China se disse "profundamente chocada" com o incidente, e manifestou "forte preocupação pelas vítimas e profundas condolências ao Paquistão".

"A China acredita que a independência, a soberania e a integridade territorial do Paquistão devem ser respeitadas, e que o incidente deve ser minuciosamente investigado", disse o porta-voz Hong Lei em nota no site da chancelaria chinesa.

O Paquistão foi aliado de primeira hora dos EUA na sua "guerra ao terrorismo", mas as relações entraram em crise por causa de bombardeios da Otan no território paquistanês e suspeitas norte-americanas de que autoridades do país colaboram com militantes islâmicos .

As relações entre os dois países também foram deterioradas desde que Washington realizou uma ação em maio para matar Osama Bin Laden em território paquistanês.

Já a China e o Paquistão, unidos pela desconfiança em relação à Índia e pelo desejo de se posicionarem contra a influência norte-americana na região, se mostram cada vez mais próximos.

A Otan descreveu o caso como um "incidente trágico e indesejado" e prometeu investigar. Uma autoridade ocidental e um funcionário afegão do setor de segurança disseram, ambos sob anonimato, que os soldados da Otan estavam reagindo a disparos vindos do lado paquistanês da fronteira.

"A essa altura, a Otan e o Afeganistão estão tentando sair da situação dando desculpas. Onde estão os feridos deles?", disse Abbas.

Os militares paquistaneses afirmam que o ataque foi gratuito, e evocaram o direito à retaliação.

O bombardeio de sábado aumentou a insatisfação popular no Paquistão contra a coalizão americana presente no vizinho Afeganistão. Muitos do Exército, Parlamento, a população nas ruas e a mídia acreditam que os EUA e a Otan são hostis ao Paquistão e que o Taleban não é o inimigo.

"Quem quer que seja um amigo dos americanos é um traidor da terra", cerca de 400 membros do movimento Jammat-e-Dawa, grupo que pertence à organização Lashkar-e-Taiba, gritavam durante um protesto em Karachi, maior cidade do país.

Apesar de aliado incômodo e de ter sido acusado diversas vezes de conivência com o Taleban, o Paquistão é considerado vital para o sucesso da Guerra do Afeganistão, por compartilhar laços tribais e a extensa fronteira com o país, por onde passam suprimentos usados pelas forças da Otan.

As redes jihadistas e os grupos filiados à insurgência do Taleban buscam abrigo nas áreas tribais do Paquistão que fazem fronteira com o Afeganistão, entre elas Mohmand, a região onde ocorreu o ataque desta sexta-feira.

O Paquistão é de importância estratégica na Guerra do Afeganistão por sua fronteira e laços tribais com o país, bem como por seu envolvimento direto no combate a militantes da Al-Qaeda na região fronteiriça.

O posto de controle aparentemente atingido neste sábado foi estabelecido justamente para prevenir que insurgentes cruzem a fronteira paquistanesa rumo ao Afeganistão, segundo a BBC.

Com Reuters, EFE e AP

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