Militares de Guiné Bissau mataram nesta segunda-feira o presidente João Bernardo Vieira, poucas horas depois do assassinato do comandante do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Tagmeh Na Waieh, em um atentado.

"O Exército matou o presidente Vieira quando ele tentava fugir da casa dele, atacada por um grupo de militares ligados ao comandante do Estado-Maior, Tagmeh Na Waieh", afirmou o chefe militar de Relações Exteriores, José Zamora Induta.

"Agora, o país vai avançar. Este homem bloqueava tudo neste pequeno país", completou o oficial.

O Exército, no entanto, anunciou que respeitará a ordem constitucional e a democracia, segundo oficiais superiores do Estado-Maior das Forças Armadas.

"O Exército, fiel a seu dever, respeitará a ordem constitucional e a democracia", afirma um comunicado.

"O Estado-Maior das Forças Armadas anuncia que o chefe do Estado-Maior, o general Tagmeh Na Waieh, foi vítima de um atentado que o matou. O exército anuncia, por outra parte, a morte do presidente Nino Vieira", afirma o comunicado.

Apesar de todas as provas em contrário, Induta declarou que a morte do presidente não tem relação com a do presidente João Bernardo Vieira.

"Não aceitaremos que as pessoas o interpretem como um golpe de Estado. Não é um golpe de Estado, repito", insistiu o capitão de fragata José Zamora Induta, que também é porta-voz da comissão militar criada na noite de domingo.

"O presidente morreu nas mãos de um grupo de pessoas que não conhecemos. Ignoramos tudo a respeito deste grupo de pessoas ainda não identificadas", acrescentou.

No entanto, foi o mesmo Induta que anunciou mais cedo à AFP a morte do presidente Vieira e acusou o chefe de Estado de ser um dos principais responsáveis pela morte de Tagmeh.

Mas ele declarou que o Exército garantiu ao primeiro-ministro que seguirá fiel aos "princípios democráticos".

"Os militares informam que a situação está sob controle e lançam um pedido à população para quem mantenham a calma", acrescenta.

João Bernardo Vieira (conhecido como "Nino"), de 69 anos, passou praticamente 23 anos à frente de Guiné-Bissau. Foi reeleito para a presidência deste país do oeste da África em 2005, nove anos depois do fim de uma guerra civil (que durou 11 meses) que o expulsara do poder.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Tagmeh Na Waieh, morreu no domingo em um atentado com bomba contra o quartel-general do Exército.

O general Waiteh foi morto na noite de domingo em um atentado cometido contra o quartel-general do exército em Bissau, anunciou à AFP seu chefe de gabinete, o tenente-coronel Bwam Nhamtchio.

"O general estava em seu escritório quando a bomba explodiu. Ele foi gravemente ferido, e não sobreviveu. É uma grande perda para todos nós", declarou, aos prantos, o oficial.

Segundo uma testemunha entrevistada pela AFP, a residência privada do presidente foi saqueada.

"Vimos militares retirando tudo o que havia dentro da residência privada do presidente, seus bens pessoais, seus móveis, tudo", afirmou a testemunha.

Em 23 de novembro, um grupo militar já havia atacado a residência de Vieira, em uma ação que matou dois seguranças.

A União Africana (UA) e a União Europeia (UE), particularmente Portugal, antiga potência colonia de Guiné Bissau, condenaram a morte do presidente.

Um comunicado do ministério das Relações Exteriores de Portugal condena "com veemência" o assassinato de Vieira e convoca uma reunião da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP).

"Portugal lamenta profundamente a morte do presidente 'Nino' Vieira, vítima de um atentado nas últimas horas em Guiné-Bissau", afirma o comunicado.

Antiga potência colonial, Portugal preside atualmente a CPLP, que tem oito países de língua portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

O presidente da comissão da UA, Jean Ping, também condenou o assassinato de João Bernardo Vieira.

"Fiquei sabendo esta manhã, com profunda consternação, do assassinato do presidente da república de Guiné-Bissau, 'Nino' Vieira. A UA e eu condenamos com firmeza este ato criminoso", declarou à AFP.

"O assassinato é grave por acontecer no momento en que estavam sendo realizados esforços para para consolidar a paz depois das eleições (legislativas) de novembro de 2008, destinadas a reforçar o processo democrático no país", completou.

O alto representante da UE para a Política Externa, Javier Solana, condenou o assassinato e defendeu a manutenção da ordem constitucional no país.

A Guiné Bissau é um pequeno país do oeste da África, cenário de vários golpes de Estado desde sua independência de Portugal, em 1974.

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