Londres, 15 jan (EFE).- Destacados membros do alto comando militar do ditador espanhol Francisco Franco tentaram alterar o rumo da Segunda Guerra Mundial passando para a contra-espionagem alemã documentos britânicos secretos sem saber que eram falsos.

É o que diz Ben Macintyre em seu livro "Operation Mincemeat", no qual cita pela primeira vez militares do regime franquista que violaram a suposta neutralidade espanhola para ajudar a Alemanha de Adolf Hitler.

O livro, que teve trechos publicados hoje pelo jornal "The Times", detalha as artimanhas dos serviços de inteligência britânicos destinadas a fazer os alemães acreditarem que os aliados invadiriam imediatamente a Grécia e possivelmente também a ilha italiana da Sardenha em vez da Sicília.

Quando o cadáver de um fictício coronel William Martin apareceu flutuando nas águas do sul da Espanha levando em cima falsos documentos detalhando a "invasão", os espiões nazistas que operavam na Espanha, dirigidos pelo major Karl-Erich Kuhlenthal, tentaram ficar com esses papéis a todo custo.

O corpo sem vida do suposto coronel Martin pertencia na realidade a um indigente galês chamado Glyndwr e foi jogado ao mar pela espionagem britânica na costa da cidade espanhola de Huelva em 30 de abril de 1943.

Poucas horas depois, um jovem pescador recuperou o cadáver e o levou para terra. A bolsa com os documentos foi salva, enquanto o cadáver do galês foi enterrado com o nome falso.

O coronel José López Barrón Cerruti, destacado policial secreto franquista e simpatizante nazista confesso, consegui rastrear os documentos que a espionagem hitlerista buscava desesperadamente. O tenente-coronel Ramón Pardo Suárez, membro do Alto Estado-Maior espanhol, os entregou aos alemães.

Os nazistas receberam também a ajuda do almirante Salvador Moreno, ministro da Marinha, e de Francisco Gómez Jordana e Souza, ministro de Assuntos Exteriores, que ajudaram a verificar os documentos em questão, segundo as teses do livro.

Os documentos foram fotocopiados na embaixada alemã antes que técnicos espanhóis os recolocassem nos envelopes, os fechassem, voltassem a colocá-los em água salgada durante 24 horas para devolvê-los aos britânicos, para fazê-los crer que os entregavam como tinham sido encontrados no mar.

O almirante Alfonso Arriago Adam, chefe do Estado-Maior da Marinha, foi o encarregado de fazer a entrega em pessoa na Embaixada do Reino Unido em Madri.

O historiador Gabriel Cardona, consultado por "The Times", disse acreditar que a ajuda dada então aos alemães obedecia a ordens diretas de Franco.

"Tenho certeza que Franco viu esses documentos. Nada ocorria dentro do estamento militar sem seu conhecimento", disse Cardona.

Os serviços de inteligência do Reino Unido só descobriram quem tinha passado os documentos aos alemães em abril de 1945, quando um grupo de comandos da inteligência naval britânica criado por Ian Fleming - o criador de James Bond -, conseguiu o arquivo no castelo alemão de Tambach.

Alguns dos documentos tinham relação com a operação Mincemeat, incluindo um no qual se revelava a identidade do membro do Alto Estado-Maior que tinha entregado os documentos à contra-espionagem alemã: o tenente-coronel Ramón Pardo Suárez. EFE jr/bba

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