Militar aposentado sonha chegar pedalando à presidência do Afeganistão

Diego A. Agúndez Cabul, 19 ago (EFE).

EFE |

- Ao velho militar aposentado Sangin Mohammed Rahmani constantemente lhe negam a passagem pelos postos de controle de Cabul sem saber que, apesar do aspecto simples do seu veículo, uma bicicleta de segunda mão, ele é um dos candidatos à Presidência do Afeganistão nas eleições de amanhã.

Com uma pensão de $825 dólares ao ano, Rahmani embarcou na quixotesca tarefa de conquistar os eleitores a pedaladas e atende as ligações com um velho celular que nem se encontra mais nas lojas, quase sempre "fora da área cobertura".

"Não tenho onde ficar em Cabul, portanto não posso receber você em lugar nenhum. A entrevista terá que ser onde o senhor o decidir", se desculpa Rahmani minutos antes de aparecer em frente à casa de hóspedes na qual se aloja a Efe, caminhando com sua bicicleta.

Vem vestido com um terno cinza castigado pelo uso e uma camisa branca abotoado até o pescoço, com um ar demorado mas resolvido, tira da bolsa a capa reciclada de um antigo laptop - "seu escritório", como ele mesmo define - além de documentos e papéis.

Rahmani é apenas um entre os 41 candidatos - dois deles mulheres - que se apresentaram às eleições presidenciais mas, ao contrário de outros que desistiram ou decidiram apoiar os favoritos, continua trabalhando arduamente na sua campanha a pedaladas pelas ruas afegãs.

"Estou o dia todo na bicicleta e o número de quilômetros que já fiz é ilimitado. Alguns já me conhecem e quando vou por aí os taxistas e motoristas de ônibus me cumprimentam", conta orgulhoso o senhor Rahmani, oriundo do nordeste do país.

A maioria dos candidatos eram desconhecidos para a opinião pública afegã e de fato o chefe da Comissão Eleitoral, Azizulah Ludin, disse no começo da campanha que alguns "não mereciam ser presidente".

Apesar da peculiar e modesta maneira de entender a campanha, Rahmani, que gastou cerca de $5 mil - a maioria, diz, emprestada - expõe suas ideias ordenadamente: detenção de criminosos, trabalho para evitar que os jovens se juntem aos talibãs...

"O dia que o Exército afegão - prossegue - mostrar que vale por si mesmo, tomarei uma decisão sobre as tropas estrangeiras em consenso com a ONU. Pediria que sua saída, mas agora não é o caso".

Rahmani, com estudos universitários e autor de dois livros de poesias - um deles se titula "Luta sem dinheiro"- trabalhou na seção de logística e engenharia do Exército até que os talibãs tomaram o poder e ele foi demitido.

Com a chegada das tropas estrangeiras e a posse do hoje presidente, Hamid Karzai, foi reabilitado e começou a receber uma pensão mensal, embora considere que o Governo "não fez nada para acabar com os talibãs".

Assim que há uns meses se decidiu a percorrer o país de carro em busca de assinaturas de apoio "para que o povo pudesse ter uma oportunidade de participar do Governo e que o Afeganistão pudesse desenvolver-se de uma vez". Alcançou 10 mil.

Rahmani não sofreu ataques dos insurgentes e diz haver levado sua campanha com liberdade, embora se queixe da pouca atenção da mídia e acusa os candidatos mais poderosos de pagar ao povo para que assista aos comícios.

"Se as eleições são transparentes e não há fraude, lhes superarei. Para mim, os meios de comunicação me deram as costas e eles só mostram comícios repletos de pessoas com bonés e camisetas que receberam dinheiro para estarem ali", comenta.

"O problema dos candidatos como Rahmani é sua ingenuidade, não suas ideias. Não é nenhum louco e sim um bom homem que tem uma maneira própria de expressar suas opiniões", manifesta a Efe um estudante afegão, Yousef, após escutar ao candidato.

Há cinco meses, Rahmani teve a bicicleta roubada. Era a hora da oração e ela estava estacionada fora da mesquita, prato cheio para os ladrões de Cabul. Ele foi obrigado a comprar outra, também com dinheiro emprestado.

Apesar das dificuldades e decepções de sua campanha (ele mesmo colou seus cartazes pela cidade), Rahmani não desiste: "Às vezes me perguntam: 'como você vai ser presidente, você vai de bicicleta?' E eu respondo: por que não? Não sou rico, mas conheço os problemas deste país". EFE daa/fk

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