Milhões de filipinos pobres depositam suas esperanças em jogos de azar

Gaspar Ruíz-Canela Manila, 21 abr (EFE).- Os filipinos com menos recursos buscam alívio nos jogos de azar e nas apostas legais ou ilegais em um país no qual um em cada três dos quase 90 milhões de habitantes subsiste com menos de US$ 1 por dia.

EFE |

Apesar da oposição da Igreja Católica neste país de maioria cristã, as apostas são realizadas tanto por quem faz parte das classes mais abastadas como pelos mais pobres. Isto é perceptível pela assiduidade dos freqüentadores de cassinos e pontos de apostas abertos 24 horas por dia.

O Estado tem o monopólio dos 13 cassinos que operam no arquipélago, e que, no ano passado, geraram uma receita de mais de US$ 600 milhões. Além disso, há a loteria, que gera outras centenas de milhões.

Comparece aos cassinos uma minoria de filipinos endinheirados, enquanto a maior parte dos clientes são coreanos, seguidos por americanos e europeus.

Os filipinos mais pobres se contentam em apostar na loteria, nas rinhas de galos e, sobretudo, no "jueteng", um jogo ilegal introduzido há um século no arquipélago por comerciantes chineses.

O jueteng, que significa "aposta da flor", gera anualmente entre US$ 500 milhões e US$ 800 milhões, mais do que a empresa estatal de telecomunicações das Filipinas.

No início do século passado, os primeiros casos de financiamento ilegal de partidos políticos com o dinheiro deste negócio começaram e empresários foram condenados por organizarem redes de apostas.

"No cassino quase todos os clientes são coreanos e europeus, a maior parte dos filipinos prefere apostar pequenas quantidades no jueteng", explicou à Agência Efe Bryan Tan, funcionário do Cassino de Malate, um dos três abertos na capital.

Tan afirmou que as apostas deste jogo ilegal não têm limite e os prêmios são exorbitantes. As regras são simples: são escolhidos dois números entre 1 e 37, no sorteio são retiradas as 37 bolas uma a uma e ganha quem acertar as primeiras e as últimas bolas extraídas.

"Caso aposte US$ 0,02 se pode ganhar US$ 21, imagine o dinheiro que este jogo movimenta se permitirem a entrega de 900% de lucro ao vencedor", declarou Tan.

Embora não existam números oficiais, se estima que entre 20% e 30% das apostas de jueteng são destinadas a subornos a políticos, policiais e jornalistas.

O ex-presidente filipino Joseph Estrada, que governou entre 1998 e 2001, foi condenado à prisão perpétua em 2007 por, entre outros crimes, aceitar subornos de operadores do jueteng.

Estrada, detido em abril de 2001, foi libertado no final de 2007 ao receber um indulto da atual chefe do Estado, Gloria Macapagal-Arroyo.

A ilha de Luzon, no norte das Filipinas, é onde ocorre a maior expansão deste jogo ilegal, tanto que, antes de cada campanha eleitoral, os bookmakers trabalham o dobro.

Parte do dinheiro serve para criar uma rede de clientelismo que permite que alguns prefeitos e governadores paguem as faturas do médico e as despesas escolares, de batismos ou bodas, de numerosos eleitores com a intenção de que tamanha generosidade seja lembrada no dia das eleições.

Embora em algumas ocasiões tome o pouco dinheiro dos mais pobres que são enganados pelos operadores, o jueteng oferece uma pequena esperança de escapar da miséria, dá trabalho a milhares de bookmakers e melhora o parco salário de muitos policiais.

Sua grande popularidade fez com que alguns analistas pensassem que os filipinos padecem de uma tendência natural para apostas.

Por isto, os professores Marvin Castell e Joel Tanchuco, da Universidade de Salle, publicaram o artigo "Os filipinos seriam jogadores inatos?".

Para Tanchuco, doutor em Ciências Econômicas, a resposta é não e, em sua opinião, esta enorme popularidade entre os mais pobres poderia ser explicada pela falta de motivação nas camadas mais pobres da sociedade.

"Na realidade, as apostas de um, cinco ou vinte pesos representam um custo muito baixo com o qual os mais pobres obtêm uma grande satisfação", afirmou Tanchuco. EFE grc/bf/fal

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