Milhares fogem de violência no Quirguistão

Segundo Cruz Vermelha, 80 mil estão refugiados no Usbequistão; número oficial de mortos é de 125, mas número pode chegar a 700

iG São Paulo |

Quatro dias de violência repentina e brutal começaram a modificar a composição étnica do Quirguistão, pequeno país da Ásia Central, com cerca 80 mil usbeques étnicos tendo fugido para o vizinho Usbequistão e com 15 mil na fronteira, informou nesta segunda-feira o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

Em Osh, segunda cidade do país, onde explodiu na noite de quinta-feira os enfrentamentos entre quirguizes e membros da minoria usbeque , os disparos ainda são constantes. No quarto dia de confrontos, o número de mortos chega a 125, segundo dados oficiais.

Mas Pierre-Emmanuel Ducruet, porta-voz da CICV que chegou a Osh nesta segunda-feira, disse que inspeções aos necrotérios da cidade sugerem que mais de 700 teriam morrido apenas em Osh, que fica no sul do país. Além disso, "pelo menos 3 mil" precisam de assistência médica urgente principalmente por ferimentos a bala.

Segundo a Cruz Vermelha, a situação é muito pior do que parece dada a impossibilidade de chegar a várias das áreas em conflito. "Somos totalmente conscientes de que a situação é muito pior do que vemos. Sabemos que há muitos feridos que não vão aos centros médicos por medo de serem atacados ou de não receber o tratamento adequado", afirmou em entrevista coletiva Pascale Meige Wagner, chefe de Operações na Ásia Central e Europa Oriental do CICV.

"Constatamos que houve enterros nos cemitérios de mais de 100 corpos que não passaram pelo necrotério e, por isso, não foram contabilizados. Além disso, há corpos que jazem nas ruas sem ser recolhidos, corpos que foram queimados nos incêndios de múltiplos das casas", acrescentou.

Enquanto ocorrem os confrontos, os líderes locais do Quirguistão e do Usbequistão tentam chegar a um acordo para pôr fim à onda de violência. "As conversas começaram ontem em Osh e continuam hoje em Jalal-Abad. Em geral, esse tipo de reunião termina de forma positiva", disse Farid Niyázov, porta-voz do governo provisório. Ele acrescentou que o encontro conta também com líderes das duas comunidades.

O vice-presidente do Executivo quirguiz, Azimbek Beknazárov, ressaltou que os dois lados chegaram a um acordo em Jalal-Abad para pôr fim ao conflito, entregar as armas e organizar patrulhas conjuntas de polícia e voluntários das comunidades locais para evitar novos choques.

Arte/iG
Mapa mostra localização do Quirguistão
Por outro lado, assinalou que tinha visitado a fronteira entre o Quirguistão e o Usbequistão, onde se concentra um grande número de refugiados. Ele acrescentou que a ajuda e os alimentos oferecidos aos refugiados é insuficiente.

O Ministério de Situações de Emergência do Usbequistão informou que 60 mil refugiados já se encontram na região usbeque de Andijan, onde foram organizados campos com pessoal médico para acolher as pessoas que fugiram do país vizinho, enquanto segue chegando mais gente à fronteira, segundo a agência "Kazinform".

Segundo o Ministério de Situações de Emergência, muitos dos refugiados que chegam à fronteira, entre os quais há principalmente mulheres, idosos e crianças, precisam de ajuda médica urgente. No entanto, as autoridades locais quirguises tentam convencer os usbeques que ainda se encontram na fronteira a não ir ao país vizinho.

"Perto da fronteira há edifícios públicos. Oferecemos ao povo que se instale nesses edifícios durante uns dias até que a situação se estabilize. No entanto, as pessoas estão desconfiadas com as autoridades e a polícia, que foram incapazes de protegê-los", disse o ministro.

Enquanto isso, a presidente interina quirguiz, Rosa Otunbáyeva, nomeou nesta segunda-feira a chefe do Comitê Estatal para Imigração e Trabalho, Aigul Riskulova, representante especial para a assistência das vítimas e refugiados da onda de violência desencadeada na noite da quinta-feira.

As autoridades locais tratam agora de organizar a entrega de alimentos, remédios e a ajuda humanitária à população, assim como de garantir o fornecimento de eletricidade e gás na área.

*Com AFP, EFE e New York Times

    Leia tudo sobre: Quirguistãoconfrontos étnicosviolência

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG