Milhares de japoneses protestam e pedem fim da energia nuclear

Seis meses depois do desastre em Fukushima, manifestação exige exploração de fontes alternativas de energia

iG São Paulo |

Milhares de manifestantes se reuniram no centro de Tóquio nesta segunda-feira para pedir o fim da dependência do Japão em relação à energia nuclear, seis meses depois do pior desastre nuclear do mundo em 25 anos.

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Vestindo fantasias, manifestantes pedem fim da dependência japonesa em relação à energia nuclear

O Japão proibiu a entrada da população dentro de um raio de 20 km ao redor da usina de Fukushima Daiichi, no nordeste do país, que teve seus sistemas de resfriamento desativados pelo terremoto e tsunami de 11 de março, que provocaram o derretimento das barras de combustível dos reatores.

Cerca de 80 mil pessoas foram retiradas da região ao redor da usina que ainda está vazando radiação, na pior crise nuclear do mundo desde Chernobyl em 1986, que obrigou o governo a repensar sua política energética.

"A radiação é assustadora", disse Nami Noji, 43 anos, que foi ao protesto que acontece durante um feriado nacional com seus quatro filhos, com idades entre oito e 14 anos. "Há muita incerteza quanto à segurança da comida, e eu quero um futuro seguro para os meus filhos."

A polícia estima que a multidão reunida nesta segunda chegou ao número de 20 mil, enquanto os organizadores garantem que havia 60 mil manifestantes nas ruas.

Os líderes do protesto, incluindo o vencedor do Prêmio Nobel em 1994, Kenzaburo Oe, e o músico Ryuichi Sakamoto, chamaram o protesto de "Adeus às Usinas de Energia Nuclear".

"Agora é o único momento para realmente mudar a política nuclear e esse é o melhor momento para agir", disse Satoe Sakai, 39 anos, que viajou de Osaka, na região central do Japão, para se unir à manifestação. "Se não pararmos agora, provavelmente nunca iremos."

O ex-premiê Naoto Kan disse à agência de notícias japonesa Kyodo News que recebeu informações de que cerca de 30 milhões em Tóquio e nas províncias vizinhas poderiam ter de ser retiradas em um cenário mais pessimista. "Foi um momento crucial quando eu não tinha certeza se o Japão continuaria funcionando como um Estado", disse no final de semana, segundo a Kyodo.

Kan disse anteriormente que o Japão não tinha escolha senão reduzir progressivamente a dependência na energia nuclear. Mas não chegou ao ponto de pedir o fim total da energia nuclear no país. Antes da crise, a energia nuclear correspondia a cerca de 30 por cento do fornecimento de energia do Japão.

O premiê Yoshihiko Noda , que assumiu o cargo no início de setembro, afirmou que o Japão vai reiniciar os reatores conforme forem feitas verificações de segurança. Mas ele acrescentou que o país deve diminuir a dependência da energia nuclear e explorar fontes alternativas, porém sem especificar objetivos específicos.

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De acordo com os manifestantes, cerca de 60 mil se reuniram em Tóquio

Mari Joh, 64 anos, viajou de Hitachi para colher assinaturas para uma petição, que visa fechar a usina de Tokai Dai-ni, que fica próxima à sua casa. Ela disse saber que mudar as fontes de energia no país poderia levar 20 anos. "Mas se o governo não agir decisivamente agora para mudar os rumos, nós vamos manter o status quo", afirmou. "Eu quero usar energia natural, como solar, eólica e biomassa."

Antes da marcha, os manifestantes se reuniram no Parque Meiji para ouvir discursos. Muitos dos presentes em Tóquio nesta segunda-feira eram de Fukushima.

"Nós, o povo de Fukushima, não conseguimos ver a radiação nuclear, é claro, e não conseguimos cheirá-la", disse o morador Yoshiharu Saito. "Mas não temos dúvidas de que está se espalhando."

AIEA

Horas depois que a manifestação tomou as ruas, o ministro de Desastres Nucleares Goshi Hosono afirmou que há um consenso político no país para reduzir a dependência da energia nuclear, mas que precisa haver um debate público sobre como proceder.

"No Japão, há um tipo de consenso de que gostaríamos de reduzir a dependência da energia nuclear, mas a velocidade com que isso seria obtido ou o método que seria usado para obter esse objetivo ainda precisa ser identificado", disse Hosono em coletiva de imprensa. "Talvez seja necessário um ano de discussões com o público japonês para identificar qual poderia ser a política energética", acrescentou.

Hosono usou seu discurso no encontro anual de membros da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para destacar o compromisso do governo com a segurança nuclear e disse que os reatores de Fukushima poderiam estar em "suspensão a frio" até o fim do ano, pouco antes do previsto.

O governo do Japão disse que a "suspensão a frio", que significa que a difusão da radiação dos reatores foi suprimida, é uma precondição para qualquer retorno de milhares de retirados da zona restrita ao redor da usina.

O governo e a empresa Tokyo Electric Power Co (Tepco), que operava a usina, haviam dito que esperavam que a suspensão a frio fosse obtida em janeiro. "Vamos prolongar o período existente e tentar obter a suspensão a frio até o final deste ano", disse Hosono no encontro em Viena.

O chefe da AIEA Yukiya Amano disse na semana passada que os reatores em Fukushima estavam "basicamente" estáveis.

Com Reuters e AP

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