Milhares apóiam o regime e pedem castigo para líderes opositores do Irã

Javier Martín. Teerã, 30 dez (EFE).- Aos gritos de morte a Moussavi e castigo aos responsáveis pela conspiração, milhares de iranianos mobilizados pelo Governo saíram hoje às ruas do país para expressar o apoio ao regime.

EFE |

Utilizando ônibus e caminhonetes a partir de diferentes pontos da capital, os manifestantes se reuniram em torno da emblemática Avenida Enghelab, palco no domingo passado dos violentos enfrentamentos entre as Forças de Segurança e os grupos de oposição que protestavam contra o regime.

Apenas três dias depois, a imagem exibida hoje ao vivo pela televisão estatal era bem diferente.

Homens e mulheres envolvidos em longos véus pretos, chamados chador, desfilavam pelas ruas do centro-sul da capital e de outras cidades com retratos do líder supremo da Revolução, aiatolá Ali Khamenei, e do controvertido presidente do país, Mahmoud Ahmadinejad.

Os gritos de apoio ao líder se misturavam com slogans nos quais culpavam os chefes da oposição, Mir Hussein Moussavi e Mehdi Karrubi, pelos sangrentos distúrbios de dias passados e da instabilidade política e social que atravessa o Irã desde a polêmica reeleição de seu líder.

"Morte a Moussavi", "morte aos que se opõem à Velayat-e Faqih" (nome que designa ao sistema teocrático iraniano) clamava uma multidão acesa, que em alguns pontos queimou bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, segundo as imagens divulgadas pelos meios oficiais, que calculam a participação de milhões de pessoas.

"Moussavi é o responsável pelo sangue derramado" e "vamos nos sacrificar pelo nosso líder supremo", foram outras frases repetidas, como informaram os meios oficiais.

Um grupo de pessoas se concentrou em frente à embaixada britânica em Teerã, onde gritaram "morte ao Reino Unido" e pediram a expulsão do embaixador, informou a agência estatal de notícias "Irna".

A manifestação desta quarta-feira responde à mobilização realizada no domingo passado pela oposição, que há seis meses denuncia como "fraudulenta" a eleição presidencial de 12 de junho e critica a atuação do regime.

O resultado eleitoral abriu uma profunda brecha na sociedade iraniana, que nos últimos meses polarizou, enquanto o regime parece enredado cada vez mais em uma ferrenha queda-de-braço pelo poder com consequências imprevisíveis.

No domingo passado, dia de "Ashura", a festa mais sagrada do calendário religioso xiita, Forças de Segurança e grupos opositores se enfrentaram em um dia sangrento no qual morreram pelo menos oito pessoas, pelos números oficiais.

Entre os mortos estava Ali Moussavi, sobrinho do líder do movimento de oposição verde, Mir Hussein Moussavi, que hoje foi enterrado no maior cemitério de Teerã em meio a severas medidas de segurança para evitar novos protestos.

Tanto a classe política, como inúmeros clérigos e as Forças de Segurança acusaram as potências estrangeiras, e em particular aos Estados Unidos, o Reino Unido e Israel, de orquestrar e apoiar o que o presidente Ahmadinejad classificou na terça-feira como "um feito repugnante".

Além disso, nos últimos dias, estão mais fortes as vozes que exigem a detenção e o castigo aos principais líderes opositores, especialmente de Karrubi e Moussavi, uma medida que segundo os analistas da região poderia agravar ainda mais a divisão do país.

O aiatolá Abbas Vaiz Tabasi foi inclusive um degrau além ao classificar aos responsáveis dos distúrbios de "Mohareb" (inimigos de Deus), um delito muito grave na jurisprudência islâmica iraniana e que é punido com pena de morte.

Tabasi, membro da assembleia de analistas e do conselho de determinação, ambos os órgãos de poder muito influentes, é considerado um dos clérigos próximos a Khamenei.

Na mesma direção apontou hoje o Conselho que coordena a propagação de um Irã Islâmico, que em comunicado reproduzido pela televisão estatal "PressTV" criticou o Poder Judiciário e o Governo por permitir que os líderes dos protestos estejam livres.

"Insistimos a todos os organismos do Governo para identificar os que desafiam os valores religiosos e deem a eles penas mais severas", afirmou.

O regime, no entanto, aumentou a pressão sobre os opositores, com a detenção nos últimos dias de mais de dez ativistas.

O chefe da Polícia Iraniana, Ismail Ahmadi Moghadam, confirmou hoje que cerca de 300 pessoas permanecem detidas desde o domingo e advertiu à oposição que a partir de agora a tolerância será zero e a ação policial "muito mais dura". EFE jm-msh/dm

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