Micheletti suspende estado de sítio em Honduras

O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, anunciou nesta segunda-feira o fim do estado de sítio no país. A medida foi imposta no dia 26 de setembro, cinco dias após a volta do presidente deposto, Manuel Zelaya, a Honduras.

BBC Brasil |


Na época, o país vivia uma onda crescente de protestos organizados pela oposição. A medida justificou o fechamento de emissoras de rádio e TV oposicionistas. Mas a decisão do governo foi criticada até por seus simpatizantes, que diziam acreditar que o estado de sítio prejudicava os planos de realização de eleições em novembro.

Em entrevista a uma emissora de televisão hondurenha, Micheletti havia afirmado anteriormente que havia "paz no país" e que Honduras queria voltar à normalidade.

Na entrevista ao Canal 5, Micheletti também defendeu as eleições como o melhor caminho para resolver a crise em Honduras. "Se ocorrerem as eleições no país, transparentes, e elegermos o novo presidente, então será possível falar de qualquer cenário, de qualquer solução", afirmou.

O presidente interino disse ainda que a aspiração de Zelaya de voltar ao poder só pode ser analisada se houver alguma decisão judicial nesse sentido porque "não se pode restituir uma pessoa que está com problemas legais no país". "De qualquer forma, a Corte Suprema de Justiça é que teria de tomar a decisão", completou Micheletti.

Cem dias

O resumo dos cem dias do golpe em Honduras parece uma trama de ficção: prejuízos milionários, isolamento internacional, violência com número ainda incerto de mortos e um presidente deposto sob a mira de armas que regressa ao país clandestinamente e se refugia na embaixada do Brasil.

Reuters
Zelaya recebe seu chapéu de um apoiador, antes de entrevista na embaixada brasileira

Zelaya recebe seu chapéu de um apoiador, antes
de entrevista na embaixada brasileira

Cansados da crise, hondurenhos de diferentes setores sociais querem o fim do impasse vivido desde a deposição de Zelaya, no dia 28 de junho, e a tomada do poder por um grupo comandado pelo ex-presidente do Congresso Roberto Micheletti.

A pressão interna por uma solução talvez agora seja tão forte como a que vem sendo feita pela comunidade internacional. A defesa de um acordo parte tanto de camponeses pró-Zelaya como de militares e empresários leais a Micheletti, apesar das fortes desconfianças dos dois lados.

Tanto Zelaya como Micheletti moderaram seus tons. O líder deposto já admite regressar à Presidência com menos poderes e até a responder na Justiça pelos supostos delitos dos quais o governo interino o acusa.

Prazo

Micheletti já enfatizou que não tomará qualquer ação contra a embaixada do Brasil, mesmo após terça-feira, quando vence o prazo determinado pela administração interina para que o Brasil defina o status político de Zelaya.

A comunidade internacional também está fazendo concessões. A Organização dos Estados Americanos (OEA) disse no domingo que o plano para pôr fim à crise política em Honduras, apoiado pela entidade e elaborado pelo presidente da Costa Rica, Óscar Árias, poderá ser flexibilizado.

O secretário de Assuntos Políticos da OEA, Victor Rico, disse que "se os próprios hondurenhos julgarem que ele (o plano Árias) pode ser modificado, isso é absolutamente factível" e que o proposta "não foi escrita em pedra ou em bronze".

Rico comanda uma delegação de quatro integrantes da entidade, que está em Tegucigalpa. E que há apenas uma semana havia sido impedida de entrar no país pelo governo interino.

Agora o clima parece ser outro. Na quarta-feira, Honduras receberá o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, juntamente com outros dez chanceleres da entidade. Antes desta visita oficial, Insulza teve um encontro secreto com Micheletti, na base militar americana de Palmerola, ao norte de Tegucigalpa, na quarta-feira passada.

Prejuízo

Desde que a comunidade internacional adotou sanções contra Honduras, o país já perdeu um total de US$ 30 milhões em assistência dos Estados Unidos, viu o Fundo Monetário Internacional congelar US$ 150 milhões que seriam destinados a reforçar as reservas de Honduras e o PIB nacional deve sofrer retração em 2009.

As dificuldades financeiras e o isolamento internacional de Honduras vêm desgastando a imagem de Micheletti junto a empresários do país, que inicialmente o haviam apoiado.

Adolfo Fucassé, o presidente da Associação Nacional de Industriais de Honduras, formulou juntamente com integrantes de sua entidade um plano que contempla a renúncia de Micheletti e o retorno ao poder de um Zelaya com poderes reduzidos, que teria de dividir espaço com um gabinete multipartidário com poderes ampliados.

Os hondurenhos exprimem opiniões diversas sobre o atual quadro político, que vão desde o apoio entusiástico a Zelaya à aversão ao líder eleito do país - ou à descrença em relação a ambas as facções.

"O governo interino fez o certo ao tirar Zelaya do poder, mas não ao expulsá-lo do país. Porque há um procedimento quando se depõe o presidente, mas ele foi afastado porque estava tentando impor uma Constituinte. Não creio que ele volte e nem quero que ele volte. A única solução é promover as eleições", disse à BBC Brasil Christopher Zapata, estudante de Relações Internacionais.

Eleições

Honduras deve realizar eleições presidenciais no próximo dia 29 de novembro, um motivo a mais pelo qual diferentes facções querem apressar as negociações entre as facções em disputa. A comunidade internacional já afirmou que não reconhecerá o resultado do pleito se Zelaya não for restituído ao poder.

Diariamente, Tegucigalpa é palco de ao menos uma manifestação a favor do líder deposto. Mas se no passado tais eventos reuniam multidões - às vezes milhares de pessoas -, atualmente elas mal conseguem arregimentar cem ativistas. Nesta segunda, militantes pró-Zelaya voltarão a se concentrar em frente à embaixada dos Estados Unidos.

Nos protestos, boa parte dos militantes pró-Zelaya são camponeses do interior de Honduras. No terceiro país mais pobre do Hemisfério Ocidental, muitos aproveitam tais eventos para tentar ganhar dinheiro, vendendo CDs piratas com músicas de protesto estampadas com fotos de Zelaya e de Che Guevara e broches com o retrato do presidente deposto com seu inseparável chapéu de caubói.

O agrônomo Jorge Flores diz que tudo leva a crer que "o governo vai reconsiderar, que os golpistas reconhecerão que cometeram um erro e que ele (Zelaya) será restituído. Estamos confiantes, por isso resistimos".

Mas para alguns, como o vendedor ambulante Jorge, pouco importa quem estiver no poder. Ele vende balas e cigarros em passeatas. "Nem me interessa contra quem é o protesto. Se for contra Micheletti, eu estou lá, se for a favor, eu vou estar também."

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