Micheletti pede a renúncia do gabinete de governo

O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, pediu aos ministros do governo que renunciem aos cargos para facilitar a formação do governo de união nacional contemplado no acordo Tegucigalpa - San José. A notícia sobre a possível renúncia de Micheletti e seu gabinete já havia sido adiantada horas antes pelo ex-presidente do Chile Ricardo Lagos - membro da Comissão de Verificação do Acordo que busca resolver a crise política no país.

BBC Brasil |

"É um passo muito importante. Na conversa que tivemos com ele, ele ofereceu a renúncia", afirmou Lagos.

"A partir daí, o governo de união nacional tem que trabalhar intensamente para fazer possível a outra parte do acordo (...) que é a restituição do presidente Manuel Zelaya", disse.

O acordo firmado há uma semana pelas duas partes - o governo interino e negociadores do presidente deposto - estabelece que nesta quinta-feira deveria se formar um governo de união nacional e reconciliação. Mas as diferenças prevalecem e numerosas perguntas seguem sem resposta sobre a eventual solução para a crise em Honduras.

Na quinta-feira, os negociadores de Micheletti anunciaram já ter preparada uma lista de nomes para a composição do novo governo.

Zelaya, por enquanto, rejeita aceitar a composição de um governo de unidade, sem que ele seja restituído à Presidência.

"Até a meia-noite nós temos que esperar o cumprimento do acordo. Seria uma pena que um acordo avalado por toda a comunidade internacional não fosse cumprido", disse Zelaya, em entrevista concedida de dentro da embaixada do Brasil à televisão nacional do Chile.

Ultimato
Segundo o cronograma do acordo Tegucigalpa-San José, firmado na sexta-feira sob mediação do Departamento de Estado norte-americano - um governo de unidade nacional deveria ser estabelecido até meia-noite de quinta-feira (horário local, 4h de sexta-feira em Brasília) sob vigilância de uma Comissão de Verificação, composta por dois representantes internacionais e dois locais.

O novo impasse na implementação do acordo, no entanto, surgiu na terça-feira, quando líderes do Congresso hondurenho decidiram adiar a votação do acordo sobre a restituição do presidente deposto. Os Parlamentares argumentaram que, antes de submeter o acordo à votação no plenário, queriam ouvir a opinião da Justiça.

Para Zelaya, que interpreta que o acordo necessariamente deve levar à sua restituição, a decisão dos Congressistas é parte de uma manobra para dilatar o acordo enquanto se aproxima as eleições.

O acordo, no entanto, não precisa um prazo para que os congressistas votem sobre a restituição de Zelaya e tampouco estabelece quem deve liderar o governo de união nacional.

Antes do anúncio sobre a eventual renúncia de Micheletti, Zelaya acusou as autoridades interinas e os simpatizantes do governo de fato no Congresso de não honrarem o acordo.

Em uma entrevista ao jornalista da BBC Emílio San Pedro, Zelaya afirmou que o acordo seria derrubado se os congressistas não realizarem uma votação para sua restituição dentro do prazo previsto para a formação do governo de coalizão.

Zelaya pediu ainda que Micheletti force o Congresso a realizar a votação.

Analistas afirmam que, levando em consideração a situação atual no país, ninguém sabe quem irá encabeçar o governo de coalizão ou se este novo governo contará com o respaldo de todas as partes.

Eleições
Nesta quinta-feira, a Frente de Resistência Contra o Golpe em Honduras anunciou que caso Zelaya não seja restituído até a meia-noite (4h de sexta-feira em Brasília), chamará a população a não participar nas eleições do próximo dia 29 de novembro.

"Se hoje (...) mais tardar à meia-noite, não for restituído em seu cargo o presidente Manuel Zelaya, a Frente Nacional de Resistência Contra o Golpe de Estado desconhecerá o processo eleitoral", diz um comunicado.

Se a medida for efetivada, ao menos dois candidatos presidenciais, Carlos H. Reyes (independente) e César Ham (União Democrática) podem renunciar ao pleito.

A decisão foi lida por Rafael Alegria, um dos dirigentes da Resistência, em frente ao Congresso Nacional, onde milhares de pessoas se mantêm em "vigília" para pressionar o Parlamento à votar o acordo que permita o retorno de Zelaya à Presidência.

A Resistência, que protesta nas ruas desde a deposição do presidente, há 131 dias, fez um chamado às organizações sociais a estarem "prontas para executar ações de desconhecimento da farsa eleitoral".

No comunicado, a Frente acusa a Organização de Estados Americanos (OEA) e o governo dos Estados Unidos de "cúmplices do golpe de Estado militar" e convocam a comunidade internacional a manter a posição de "não legitimar" do processo eleitoral e do governo interino.

Brasil e a maioria dos países da América Latina afirmam que não reconhecerão o resultado das eleições, caso Zelaya não seja restituído.

* Com informações de Cláudia Jardim, de Caracas para a BBC Brasil

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