Mais de um milhão de sinistrados do ciclone Nargis em Mianmar (antiga Birmânia), que sobrevivem em meio a corpos em decomposição, correm o risco de morrer de sede, de fome ou de doenças se nada for feito para ajudá-los, denunciaram organizações humanitárias nesta sexta-feira.

Os sobreviventes não têm nem água potável, nem alimentação: sem assistência, o balanço de 65.000 mortos e desaparecidos vai se agravar rapidamente, avisaram os especialistas.

"Centenas de milhares de pessoas não têm água nem comida, nem contam com tratamentos básicos de emergência", lamentou o porta-voz do Programa Mundial de Alimentos (PAM) em Bangcoc, Paul Risley. Ele também se disse inquieto com as crianças e os idosos desabrigados, que ficam várias horas sob um sol escaldante.

A junta militar birmanesa impediu nesta sexta-feira a passagem das equipes de socorristas e dos jornalistas estrangeiros, apesar dos numerosos apelos da comunidade internacional para que o país aceite a ajuda humanitária destinada aos mais de um milhão de sinistrados do ciclone Nargis.

Os militares birmaneses, que dominam totalmente o país há quase meio século, querem administrar eles mesmos as ajudas materiais e financeiras prometidas, avaliadas em milhões de euros.

De acordo com o último balanço oficial provisório, o ciclone que arrasou no fim de semana passado o sul de Mianmar deixou quase 23.000 mortos e mais de 42.000 desaparecidos. Entretanto, o embaixador britânico em Yangun, Mark Canning, considerou que o número de vítimas pode ser superior a 100.000.

"Não me lembro de um país abalado por uma catástrofe natural que aceite o princípio de uma ajuda internacional mas que recuse a assistência de trabalhadores humanitários", insurgiu-se Risley.

No sul do país, coberto pelas águas, as maiores preocupações são as doenças transmitidas pela água parada.

"Estamos muito preocupados com as crianças", as primeiras vítimas deste tipo de infecções, destacou James East, porta-voz para a Tailândia da ONG World Vision, que já registrou casos de diarréia e tifóide.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse esperar "um aumento das doenças ligadas à diarréia e das infecções respiratórias agudas". A OMS também alertou para a malária, endêmica em Mianmar, e cuja propagação pelos mosquitos é favorecida pelas "águas paradas".

Segundo Richard Horsey, porta-voz da ONU em Bangcoc, o isolamento de "150.000 pessoas incapazes de se movimentar" no delta do rio Irrawaddy (sudoeste), a região mais devastada do país, também é um fator de risco. Ele também alertou para as fortes chuvas aguardadas para os próximos dias, que podem piorar a situação.

Se o volume de ajuda não aumentar rapidamente, esta catástrofe "poderia acabar matando o mesmo número de pessoas que o ciclone inicial", avisou Horsey.

De qualquer forma, para as organizações humanitárias, a ajuda chega em quantidade totalmente insuficiente, e lentamente demais.

"A amplitude das destruições é imensa. As pessoas brigam entre si para comer e encontrar um lugar para ficar. Elas precisam de água potável para sobreviver, relatou uma voluntária da associação Merlin, que trabalha no delta do Irrawaddy.

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