A junta militar birmanesa aceitou, nesta quinta-feira, com reservas, a ajuda internacional oferecida em massa para os desabrigados do ciclone Nargis, que pode ter deixado mais de 80.000 mortos, de acordo com uma autoridade militar local, e mais de 100.000, segundo fontes diplomáticas americanas.

O primeiro avião da ONU, uma aeronave do Programa Mundial de Alimentos (PMA), aterrissou hoje em Yangun, com itens urgentes para os sobreviventes da catástrofe, informou a FAO, o organismo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

Os americanos, que haviam anunciado terem recebido autorização da junta para enviar um avião, informaram, finalmente, que as discussões continuavam. Segundo um funcionário do Departamento de Estado, estaria-se cogitando, inclusive, a possibilidade de enviar a ajuda mesmo sem o sinal verde de Yangun, lançando alimentos sobre as zonas devastadas pelo ciclone.

O responsável pelos Assuntos Humanitários das Nações Unidas, John Holmes, declarou-se "decepcionado" com as autoridades de Mianmar, já que elas "não negaram o ingresso (das equipes humanitárias estrangeiras), mas não facilitaram a entrada".

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu ao regime birmanês que se concentre em mobilizar recursos para enfrentar o desastre, em vez de fazê-lo para o referendo constitucional de sábado.

Segundo as organizações humanitárias, a ajuda chega, pouco a pouco, de Tailândia, China e Índia. A Grécia também anunciou haver conseguido autorização birmanesa para enviar um avião com material de primeiros socorros. Ainda assim, a ajuda é insuficiente e chega muito lentamente para assistir a toda a população afetada.

A junta militar de Mianmar é extremamente malvista por Washington, mas os EUA a pressionavam há vários dias para que aceitasse ajuda, após a passagem no fim de semana passado do ciclone Nargis, que pode ter provocado mais de 100.000 mortes.

Nesse sentido, o Senado americano aprovou uma resolução exigindo que o governo militar levante as restrições à entrega de ajuda estrangeira.

A ajuda enviada pela ONU já havia chegado à Mianmar, mas não a bordo de um avião especial das Nações Unidas. O auxílio havia sido transportado por veículos tailandeses, de acordo com Richard Horsey, porta-voz das Nações Unidas em Bangcoc.

O auxílio internacional começa a reforçar as equipes humanitárias que já se encontravam no local durante a catástrofe. A ONU pediu ainda que a junta militar autorize a entrada de uma centena de especialistas, principalmente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O processo para obtenção de vistos leva, contudo, muito tempo. O regime militar de Mianmar, um dos mais fechados do planeta, já havia informado os especialistas humanitários, no início da semana, que deveriam passar pelos trâmites legais para entrar no território.

Na noite de quarta-feira, um balanço oficial ainda provisório divulgado pela televisão estatal contabilizava 22.980 mortes e 42.119 desaparecidos.

Na cidade de Labutta e nas 63 localidades vizinhas, no meio do delta do Irrawady, completamente devastado pelo ciclone, uma autoridade local, Assento Win, disse que as mortes podem chegar a 80.000. De acordo com o secretário do distrito de Labutta, dezenas de aldeias do local foram dizimadas.

"Até agora, o balanço estimativo nessas cidades é de cerca de 80.000 mortos", declarou Tin Win, chefe de um distrito de Labutta, no coração do delta.

Nenhum representante do governo nacional confirmou esse número até o momento.

"No conjunto do delta, poderão chegar a 100.000 mortes", disse, por sua vez, a encarregada de negócios americanos em Yangun, Shari Villarosa.

Ontem, o secretário-geral Ban Ki-moon pediu que o governo de Mianmar facilitasse a ajuda, e a França propôs que o Conselho de Segurança das Nações Unidas inicie movimentações para obrigar a junta militar a permitir a entrada de auxílio.

Apesar da situação catastrófica, o governo de Mianmar manteve para sábado o referendo sobre uma nova Constituição, que de acordo com a oposição perpetuará os militares no poder. A votação será adiada apenas em 47 municípios particularmente afetados.

A magnitude dos danos causados pelo ciclone ainda é difícil de calcular, mas o porta-voz da ONU Richard Horsey afirmou que cerca de 5.000 km2 de terras continuam debaixo d'água. "Pelo menos um milhão de pessoas precisam de ajuda", alertou.

Também na quarta-feira a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, pediu ao governo de Mianmar que aceitasse a ajuda internacional, afirmando que não se trata "de uma questão política", mas humanitária.

burs-aud/fb/fp/tt

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.