Mianmar realiza referendo apesar de apelos da ONU

Apesar de apelos da Organização das Nações Unidas (ONU) para adiar um referendo sobre uma constituição elaborada pela junta militar de Mianmar, o governo do país resolveu manter a votação para este sábado. O processo está sendo realizado na maior parte do país, mas foi adiado nas áreas mais atingidas pelo ciclone tropical Nargis.

BBC Brasil |

Na principal cidade do país, Rangoon, e no delta Irriwaddy, o referendo deve ser realizado apenas daqui a duas semanas.

A ONU, que estima que o número de mortes causadas pela passagem do ciclone possa chegar a 100 mil, pediu ao governo birmanês que priorizasse a ajuda às vítimas e adiasse o referendo.

A junta militar está sendo muito criticada pela comunidade internacional por dificultar a entrada de ajuda internacional para as vítimas da tragédia.

Cinismo
Grupos envolvidos nos protestos a favor da democracia no ano passado, acusaram a junta de se concentrar em um "referendo constitucional falso" em vez de "aplicar todos os recursos para salvar as vidas" das vítimas do ciclone.

Os generais birmaneses dizem que o referendo vai abrir caminho para eleições democráticas em 2010, mas a oposição diz que a constituição deve solidificar o poder dos militares.

Correspondentes no país dizem que muitas pessoas encaram a votação com cinismo.

"Eles pegam seu nome e o número de sua identidade. Aí eles sabem se você aprovou ou rejeitou (a constituição)", disse um empresário, que não quis se identificar, à agência de notícias Reuters.

Na cidade de Hlegu, a cerca de 50 quilômetros de Rangoon, a agência de notícias Associated Press diz que o comparecimento às urnas tem sido muito baixo.

Um eleitor, o soldado reformado Nyo Aye, disse que ele votou "sim" apesar de não ter lido a constituição.

"O governo não faria nada inapropriado ou ruim para o país", disse o senhor de 65 anos.

'Dever patriótico'
O governo militar de Mianmar deu ordens explícitas para a população aprovar o referendo, considerado o primeiro exercício democrático no país em quase duas décadas.

A televisão estatal veiculou comerciais em que pede para a população votar e exercer seu "dever patriótico" aprovando a constituição.

O principal jornal que expressa a voz do governo militar, o New Light of Mianmar, estampou o assunto na capa, dizendo que "aprovar a constituição do Estado é o dever nacional de todo o povo hoje".

O governo vem sendo criticado pela forma com que está conduzindo a crise causada pelo ciclone, que oficialmente deixou 23.335 mortos e 37.019 desaparecidos.

Apelo por ajuda
O subsecretário-geral de ajuda humanitária das Nações Unidas e coordenador das operações em Mianmar, John Holmes, lançou nesta sexta-feira um apelo por uma ajuda de US$ 187 milhões para as vítimas do ciclone Nargis.

"O apelo que estamos lançando oferece um plano preliminar coordenado da comunidade humanitária para complementar os esforços de ajuda do governo de Mianmar e fornecer assistência aos sobreviventes", disse Holmes.

O apelo foi lançado em um momento em que o Programa Mundial de Alimentos da ONU enfrenta um impasse com o governo militar de Mianmar, que apreendeu um carregamento com suprimentos para as vítimas do ciclone.

O carregamento confiscado, 38 toneladas de bolachas energéticas em quantidade suficiente para alimentar 95 mil pessoas, ficou em um armazém e "aparentemente sob responsabilidade pessoal do ministro do Bem-Estar Social", segundo a agência da ONU.

O governo birmanês negou ter confiscado os alimentos e afirmou que apenas assumiu o controle da distribuição da ajuda.

De acordo com o correspondente da BBC em Bangcoc, Jonathan Head, o governo de Mianmar afirma que seus próprios soldados podem distribuir os suprimentos.

Até agora, Mianmar aceitou ajuda limitada, de países com quem mantém boas relações como China e Tailândia, além de quatro vôos com suprimentos enviados pela ONU e um comitê da Cruz Vermelha Internacional.

O representante de Mianmar junto à ONU, embaixador Kyaw Tint Swe, agradeceu nesta sexta-fera a solidariedade e a generosidade da comunidade internacional e disse que o país está disposto a aceitar ajuda de todos os cantos do mundo.

O embaixador declarou ainda que o primeiro vôo com ajuda dos Estados Unidos deve chegar a Mianmar na segunda-feira.

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