Mianmar organiza conferência de doadores para pedir 11 bilhões de dólares

Mianmar recebe domingo uma conferência internacional de doadores para pedir quase 11 bilhões de dólares depois de ter autorizado a entrada dos trabalhadores humanitários estrangeiros, que no entanto ainda não tiveram acesso ao sudoeste do país, devastado pelo ciclone Nargis nos dias 2 e 3 de maio.

AFP |

Além disso, o regime militar organizou neste sábado seu referendo constitucional nas regiões do delta do Irrawaddy (sudoeste) e de Yangun, as mais abaladas pela catástrofe que deixou pelo menos 133.600 mortos e desaparecidos.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, deve retornar a Yangun domingo para esta conferência de doadores que organiza com a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), da qual Mianmar é membro.

Ban Ki-moon, que voltou neste sábado a Bangcoc depois de uma visita na província chinesa de Sichuan, obteve sexta-feira do líder da junta militar, o general Than Shwe, a promessa de deixar entrar "todos os trabalhadores humanitários internacionais" para socorrer os 2,4 milhões de desabrigados.

"Acredito que eles (os generais) cumprirão com sua palavra. Eles prometeram sua total coooperação", afirmou.

A conferência dos doadores havia sido anunciada segunda-feira em Cingapura, e o governo birmanês tinha avaliado os danos provocados pelo Nargis em 10,7 bilhões de dólares. As Nações Unidas lançaram um apelo a doadores para arrecadar 187 milhões.

"A conferência buscará obter o apoio da comunidade internacional e uma assistência financeira para responder às necessidades mais urgentes e aos esforços de reconstrução no longo prazo", explicaram os organizadores.

Os ocidentais, e principalmente os Estados Unidos, têm reservas sobre esta conferência.

Para a comunidade internacional e as organizações humanitárias, o mais importante é ter acesso rapidamente ao delta do Irrawaddy, fechado aos estrangeiros.

Por enquanto, apesar da promessa de Than Shwe, "não há regras claras", lamentou um trabalhador humanitário estrangeiro em Yangun, que não quis ser identificado.

"Voluntários do sudeste asiáticos já foram impedidos de entrar no delta", revelou.

O próprio Ban Ki-moon admitiu que o sinal verde da junta ainda tem que se concretizar no terreno.

Com 57 milhões de habitantes, Mianmar se tornou depois de 46 anos de regime militar um dos países mais pobres do planeta. A junta rejeitou uma ampla operação de assistência internacional, apesar das pressões de todo o mundo.

A ajuda estrangeira "só alcançou cerca de 25%" dos sobreviventes do ciclone, segundo a ONU. Jornalistas continuam vendo milhares de pessoas desesperadas, com fome, com sede e desabrigadas.

A trágica situação em que se encontra o país não impediu a junta de convocar às urnas neste sábado cinco milhões de eleitores em 47 circunscrições do Irrawaddy e de Yangun para um referendo de aprovação de sua Constituição.

Esta votação, a primeira desde 1990 na antiga Birmânia, já foi realizada em 10 de maio na maioria dos estados do país, mas havia sido adiada nas regiões mais abaladas pelo Nargis.

Em pleno drama humanitário no sul, a junta militar anunciou naquele dia um nível de participação de 99,07%, de um total de 22,7 milhões de eleitores, dos quais 92,4% aprovaram a nova Constituição proposta pelo regime.

Os birmaneses não têm qualquer ilusão sobre a credibilidade deste referendo, e admitem que temem os militares.

"Eu e meus amigos vamos votar sim porque se a gente votar não as autoridades vão saber, e não queremos problemas", explicou Soei Teck, uma funcionária de 26 anos.

Os militares afirmam que a nova Constituição abrirá o caminho para "eleições multipartidárias" em 2010 e uma possível "transferência de poderes" aos civis.

No entanto, para a oposição dirigida pela Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, este texto "anti-democrático" tem como objetivo perenizar a dominação do Exército, no poder desde 1962.

hla/yw

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